Portaria perversa

A sensibilidade social da gestão Bolsonaro causa espanto. Desde ontem, por força de medida extraordinária do governo federal, os brasileiros mais pobres estão autorizados a contrair empréstimo, livres para se endividar.
Beneficiários do Auxílio Brasil já podem contratar empréstimos consignados, pagando juros de até 3,5% ao mês, oferecendo o que receberão por meio do programa Auxílio Brasil como garantia. A contratação do crédito está prevista em Portaria publicada no Diário Oficial da União pelo Ministério da Cidadania.
Tapa-se, assim, o sol com a peneira. Ao invés de criar oportunidades de emprego e se comprometer com a geração de renda, o governo toma um atalho. Os riscos, no entanto, cabem todos aos cidadãos.
Convém lembrar aos distraídos que sobre a contratação de um empréstimo sempre incidem juros, ainda que mínimos. Os eventuais beneficiários da esdrúxula Portaria, imperativo ter em mente, são justamente cidadãos sem renda suficiente para a própria subsistência, dependentes de um auxílio exíguo, quase uma esmola. Ao comprometer o pouco assegurado em troca de quase nada, homens e mulheres na corda bamba podem se enforcar de vez.
A Portaria aqui em questão extrapola o absurdo, resvala em perversidade pura e simples. A maioria da população trabalha para pagar juros, enforcada pelo cartão de crédito, com 78% das famílias endividadas, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Mas o governo acha pouco, quer o cidadão sem renda endividado, também.

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