Sexta, 01 De Março De 2024
       
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Pra quando o carnaval chegar


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Publicado em 31 de janeiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


O Raspadinho já teve a sua graça (Divulgação)

Rian Santos
 
Ainda não vai ser dessa vez que o carnaval se distanciará, para mim, daquela leitura inicial de Kundera.
Foi o nome suntuoso e melancólico, tão sugestivo para um pretenso literato, donzelo e imberbe, que me cobrou atenção. ‘A insustentável leveza do ser’. Eu não sabia o que esperar do livro, nem poderia adivinhar que aquele drama erótico e político iria me proporcionar tamanha sucessão de ereções. Eu compreendia a angústia que permeava a relação afetiva dos personagens, percebia a sua importância para o equilíbrio do romance, mas não a sentia como minha. 
Adolescente de longas e solitárias jornadas no banheiro, experiente somente no amor que se faz com a palma das mãos, não me era possível estabelecer um vínculo entre o muito de renúncia e dor que impregnava os sentimentos de Tomas e Tereza e os meus dias insossos de escola, cinema, clube e televisão.
Naquela altura, só me importava a putaria. Foi preciso adquirir ciência de que o sexo pode ser experimentado na companhia de outra pessoa, curtir a sarjeta de uma dor de corno, para me solidarizar com Tereza. Foi preciso sentir a tentação de uma aventura extraconjugal, esse subterfúgio pecaminoso que preserva a delícia dos casamentos (na opinião de Lord Henry, personagem e alter ego de Oscar Wilde), para compreender a abnegação de Tomas. Antes disso, eu me relacionava com o romance feito uma criança que encara uma pintura renascentista, interessado somente na opulência nua da Vênus de Botticelli.
Assim também se dá a minha compreensão do carnaval. Falta-me a experiência. Do Pré-Caju, a festa de Fabiano Oliveira, lembro apenas o fedor de mijo a empestar as esquinas da cidade, os tapumes que estragavam a feição dos prédios na Beira Mar. Refiro-me ao auge da prévia, antes de a ASBT ser condenada a devolver R$ 4 milhões ao Ministério do Turismo, ou de Márcio Macedo cair na gandaia com o patrocínio da Presidência da República. Ninguém jamais se bateu com os gringos supostamente atraídos pelos pracatuns da baianidade nagô.
Do carnaval no interior, ainda agora, quando o governo do estado promove o Verão Sergipe, não se pode esperar muito. Haverá cerveja e suor, claro, a encenação de uma alegria completamente previsível. Na capital, por sua vez, a fuzarca mercantil de bares e restaurantes fará algum barulho, com os bloquinhos que invejam o Carnaval de Olinda. O Raspadinho já teve a sua graça. Mas passou.
Talvez este seja apenas o depoimento de um sergipano caindo de velho, desanimado. Em verdade, continuo me guardando pra quando o carnaval chegar, mas sem a esperança resignada do sambista carioca. Enquanto o dinheiro público patrocina festas particulares e os governantes ignoram as manifestações efetivamente populares – único antídoto capaz de revitalizar a identidade sergipana e levar a cultura de volta ao seu lugar de direito, o meio da rua – o carnaval continuará sendo, para muitos, a maioria, uma temporada memorável em terras de Pernambuco e Bahia.
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