* Kelvyn Rodrigues
Projetos de Lei que pretendem proibir a presença de crianças e adolescentes em eventos LGBTI+, especialmente nas Paradas do Orgulho, tentam se apresentar como medidas de “proteção à infância”. Na prática, representam uma das faces mais cruéis do conservadorismo: utilizam um discurso seletivo para justificar preconceito e reforçar a LGBTI+fobia institucional.
O próprio conteúdo desses projetos evidencia essa contradição. Não existem propostas semelhantes para todos os eventos públicos com grande circulação de pessoas, consumo de álcool ou exposição a conteúdos considerados inadequados. A restrição aparece especificamente quando se trata de eventos LGBTI+. O alvo, portanto, não é a proteção da infância, mas a existência pública dessa população e o debate sobre seus direitos.
Se a preocupação fosse realmente proteger crianças e adolescentes, os mesmos critérios precisariam ser aplicados ao carnaval, micaretas, forrós, vaquejadas, shows, réveillons, jogos de futebol e até eventos religiosos de massa – espaços onde se encontra álcool, superlotação, violência, erotização comercial e até mesmo discursos de ódio.
A seletividade expõe a contradição central: quando famílias participam do carnaval, isso é tratado como tradição cultural, quando participam de Paradas do Orgulho, passa a ser apresentado como ameaça à infância e à suposta “família tradicional”.
Essa narrativa faz parte de uma agenda anti-LGBTI+ internacional que se espalha pelo Brasil e também aparece em Sergipe. Historicamente, pessoas LGBTI+ foram associadas de forma preconceituosa à promiscuidade, desvio moral e ameaça social. Esses projetos apenas reciclam essa lógica sob uma nova embalagem. Fabricar inimigos imaginários virou tática recorrente para transformar preconceito em capital político e visibilidade eleitoral.
Juristas, entidades de direitos humanos, especialistas da infância, a OAB e decisões do STF já apontaram que propostas desse tipo violam princípios constitucionais básicos, como igualdade, liberdade de expressão e não discriminação.
Na última semana, esse tipo de projeto foi apresentado na Câmara Municipal de Aracaju por setores conservadores e oportunistas. A estratégia é conhecida: utilizar termos vagos, falsas polêmicas, achismos e desinformação para justificar censura e perseguição seletiva. Afinal, um casal hétero-cis demonstrando afeto em público é visto como normal. Quando o mesmo acontece com casais LGBTI+, rapidamente surgem tentativas de controle moral e violência. A régua muda dependendo de quem ocupa o espaço público.
Essa lógica produz consequências concretas. Recentemente, uma menina que havia vencido o câncer e comemorava seu aniversário, tornou-se alvo de linchamento virtual por ser confundida com um menino trans devido ao cabelo curto. O episódio revela uma incoerência cruel: em nome da suposta defesa das crianças e adolescentes, cria-se justamente um ambiente onde crianças e adolescentes passam a ser policiados, julgados e hostilizados por não corresponderem às expectativas rígidas sobre aparência e comportamento.
O verdadeiro perigo para crianças e adolescentes não é conviver com a diversidade. O verdadeiro perigo é crescer em uma sociedade que normaliza preconceito e desumanização. Crianças não “viram LGBTI+” por presenciarem diversidade, mas certamente podem aprender respeito, convivência democrática e rejeição à intolerância.
Enquanto isso, problemas realmente graves seguem atingindo milhões de crianças e adolescentes: fome, casamento infantil, abuso sexual – na maioria das vezes dentro do próprio ambiente familiar e religioso – violência doméstica, trabalho infantil, evasão escolar, racismo estrutural, abandono social e falta de acesso à saúde mental. Ainda assim, parte do parlamento prefere concentrar energia em atacar uma população historicamente marginalizada.
Defender crianças e adolescentes também exige discutir as condições concretas de vida das famílias trabalhadoras. A luta pelo fim da escala 6×1, por exemplo, não é apenas trabalhista: jornadas exaustivas reduzem tempo de convivência, dificultam o acompanhamento escolar e aprofundam o desgaste físico e mental de mães, pais e responsáveis. Garantir mais descanso, lazer e convivência significa fortalecer vínculos familiares e ampliar as condições reais de cuidado.
Sergipe possui uma longa trajetória de luta pelos direitos LGBTI+, com organizações históricas, lideranças políticas e redes de articulação, que ajudaram a construir importantes avanços. A exemplo da ASTRA, que desde 2001 realiza a Parada do Orgulho em nosso estado. Permanecer em alerta é fundamental para impedir retrocessos e garantir o direito de existir.
Quando a sociedade normaliza discursos LGBTI+fóbicos, legitima formas de violência que ultrapassam essa população e atingem o conjunto da sociedade. Defender crianças e adolescentes significa combater a violência, a insegurança, a exploração e o abandono – não transformar diversidade em inimiga pública.
Pátria livre, livre de todos os preconceitos, explorações e opressões. Venceremos!
* Kelvyn Rodrigues, biólogo e educador Popular. Militante da Consulta Popular, do MOTU (Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos) e do Coletivo Slam do Mangue.


