* Manoel Moacir Costa Macêdo
Ainda sob as inspirações do novo ano, são aguardadas as propostas para um novo bem-viver. No tempo da humanidade, essa passagem não altera a riqueza e o prazer no ano que passou, nem alivia a pobreza e o sofrimento no ano porvir. Uma continuidade consentida das imperfeições do velho para o novo ano, um a interferir no outro, numa conta de trezentos e sessenta e cinco dias – insignificância para os crentes na eternidade.
Não existe, na vida real uma pausa entre os anos. A separação linear entre o velho e o novo, é um artificio em determinado calendário, adotado por seletivos países, a exemplo dos iluminados da Europa, globalizados mundo afora, como imposição da modernização europeia. Um desejo abortado de um "ano novo universal".
No sentir da humanidade, o aguardado é um "ano bom", seja velho, novo, ou ambos, que ultrapasse os muros do velho continente, e a sua história imperial de riqueza e mando. O progresso desse ideal e frio ano novo, jamais alcançou as periferias quentes do planeta, a exemplo da esquecida África e da explorada América Latina. A dialética no velho e novo ano, globaliza e perpetua as carências que ultrapassam gerações, em retóricas seculares, numa rochosa dependência entre ricos e pobres, iguais e desiguais, livres e subalternos. Um acordo patrocinado por estratégicos sistemas de controle e submissão.
Ao final, são oprimidas pelo status quo as rupturas do primitivismo, das "provas e expiações", da salvação, do centro versus periferia, do utópico "socialismo ou morte", e da seletiva globalização. Desigualdades são revigoradas numa nova ordem, sem fronteiras, circulação financeira ilimitada e limites éticos ampliados, como se fossemos espécies de diferentes gêneros. Evidências são inequívocas, a exemplo das assimetrias no acolhimento de valores universais e iluministas da civilização.
Aqui, está posto, um entre outros diagnósticos. Não propõe festejos, nem esperanças, no lapso temporal de gerações, em pacífico imobilismo, mesmo que os sábios gregos ensinem que "um estômago vazio não ouve a razão, e nem se curva por nenhuma prece". Alguns, no entanto, creem na obediência e passiva brasilidade, condicionada por elites competentes, tal qual um contrato firmado com cláusulas de perpétuas carências. Outros, propõem caminhos apartados, da "coesão social", na direção do determinismo da humanidade em sua face cristã: vida para todos em abundância material e moral.
Ideias, pensamentos e propostas não faltam. Algumas conhecidas e repetidas. Outras inéditas, fora dos parâmetros convencionais e postulados da economia e da política. As abstrações clássicas fundamentadas em teorias de desenvolvimento, após submetidas aos testes e repetições seculares, foram rejeitadas, e a esperada mudança social não floresceu. Mais uma vez, restaram as esperanças, e como antes nunca chegam. Gerações chegaram e partiram, sem experimentarem a convivência harmoniosa e satisfatória no uso de bens e valores, tal qual os donos do mundo. Um apartheid cruel entre os humanos, numa arena global impiedosa.
O proposto agora, está fora do eixo da ortodoxia. A hipótese de trabalho, é o imponderável. Ultrapassa o positivismo científico, para o encontro popular e das massas: o carnaval em sua dimensão social, política e econômica. Não se trata de uma proposta de anomia, mas a rejeição de enredos iniciados com otimismo no novo ano e fracassados no seu final: desemprego, violência, pobreza e desigualdade. Nada de estranho, somos o país do carnaval e do futebol, a "pátria do evangelho e o coração do mundo", da gente alegre e cordial, e do "jeitinho", com um encontro marcado num dia qualquer, no horizonte imaginário de sonhos e utopias em "novos anos". Um teste está em curso na cidade maravilhosa: cinquenta dias de festejos carnavalescos, iniciado no ano novo. Repetição na baía de todos os santos, onde o axé começou em dezembro do velho ano e continua vigoroso no novo ano, como se únicos fossem. Assim, tem sido os caminhos, nos intermináveis velho e novo anos, curtidos na história da "tropicalidade tupiniquim".
* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra


