Paulo Franklin
Lembro como se fosse hoje o dia em que fui convidado para dar aula em turmas de Filosofia. Como já era catequista, a sala de aula não me assustou. O conteúdo era outro, os alunos eram outros, mas a missão de ensinar o conteúdo programático em nada se diferenciava. O tempo passou e hoje, quatorze anos depois, entendi que ser professor é muito mais do que dar aula. Ser professor tornou-se, acima de tudo, um ato de coragem.
Embora muitos não percebam, há uma dor que não aparece no boletim, não consta no planejamento pedagógico e não é registrada em ata de reunião. É uma dor que se instala devagar no cotidiano de quem dedica a vida a ensinar e que muitos carregam em silêncio: a dor de um ambiente educacional que, em vez de acolher, adoece o educador.
Em muitos contextos, instalou-se uma lógica perversa em que o professor é tratado como prestador de serviços e não como um ser humano em relação. E, quando esse professor é homem, a ele é negado até o direito de parecer frágil.
A sala de aula deixou de ser apenas espaço de transmissão de conhecimento para se tornar, muitas vezes, um campo de batalhas invisíveis, onde o educador é desafiado por dinâmicas de grupos tóxicas usadas por alguns alunos como forma de obter status diante dos colegas. O professor vira alvo de piadas e julgamentos, e todo o ambiente se contamina.
Quando isso ocorre, não é raro que a gestão da escola se mantenha omissa. Problemas de convivência, assédio moral entre alunos e até situações de discriminação acabam tratados como “coisas de sala”. Ao professor, resta aceitar calado, afinal, o aluno passa a ser visto como “cliente” e o educador como um “problema”. A sensação é a de que o sistema, tal como hoje organizado, quase sempre vence e o professor se sente reduzido a um prestador de serviços facilmente substituível. Sua saúde mental, sua dignidade e seu direito a um ambiente respeitoso ficam em segundo plano quando a equação prioriza a retenção de matrículas e uma paz apenas aparente.
Há também um aspecto pouco discutido nesse cenário: quando o educador é homem, o sofrimento assume contornos ainda mais silenciosos. A sociedade e, muitas vezes, a própria instituição esperam que ele seja sempre firme, inabalável e emocionalmente blindado. Chorar, demonstrar abatimento ou simplesmente admitir que está no limite são vistos como sinais de incapacidade. Não é raro ouvir frases como “homem engole o choro” ou “homem tem que aguentar”. É por engolir tanta frustração e disfarçar a exaustão que muitos educadores estão adoecendo.
Ninguém consegue oferecer o melhor de si quando está adoecido. Um ambiente de trabalho que não prioriza a saúde mental de seus profissionais não é um bom lugar para se estar. Muitas vezes, o educador se encontra sozinho, cercado de alunos, tentando jogar uma partida sem time, enquanto a gestão corre para apagar incêndios em outras salas.
Em ambientes tóxicos, resta a difícil escolha entre permanecer calado e definhar aos poucos ou romper o silêncio e enfrentar as consequências. Há os que escolhem sair, não por fraqueza, mas por preservação. Compreendem que nada é mais valioso do que a dignidade humana, frequentemente assaltada de forma sutil por um sistema que exige do educador acolhimento, atenção e amor, mesmo quando o próprio ambiente lhe causa sérios prejuízos emocionais.
Este texto é um convite à reflexão. Para os gestores, um pedido de olhar mais cuidadoso para quem educa. Para as escolas, a lembrança de que, por trás do pincel, da caneta e do projetor, há um ser humano. E para os professores, a consciência de que educar começa por cuidar de si, para então encontrar forças para cuidar dos outros.
* Paulo Franklin é professor, advogado e psicanalista em Estância/SE


