A manobra golpista realizada pelo presidente Jair Bolsonaro, em presença de embaixadores convidados para uma reunião no Palácio da Alvorada, pode ter ido longe demais. Uma reação começa a ganhar corpo. Ontem, procuradores de todos dos estados brasileiros, mais o Distrito Federal, assinaram uma notícia-crime contra o presidente. Ataques ao sistema eleitoral não são protegidos pela liberdade de expressão.
A notícia-crime é assinada por procuradores federais dos Direitos dos Cidadãos, braço do Ministério Público Federal voltado para a defesa dos direitos individuais. No documento enviado à PGR é solicitado que o procurador geral Augusto Aras, por meio da Procuradoria-Geral Eleitoral, atue seguindo “sua missão constitucional de proteção da democracia”.
A repulsa aos ataques golpistas do presidente no âmbito do Ministério Público é generalizada. Mais cedo, 21 subprocuradores assinaram um manifesto público contra as críticas de Bolsonaro e defendendo uma atuação firme de Aras, apontando que a Constituição atribui ao chefe do Ministério Público a função de fiscalizar a regularidade das eleições, com legitimidade para atuar “em todo o processo eleitoral”.
De tanto esticar a corda, Bolsonaro pode estar prestes a responder pelos seus atos. A reação coletiva é inédita e constrange Augusto Aras a tomar uma atitude, finalmente. É sabido que o Procurador Geral tem pouca disposição para contrariar os interesses do Palácio do Planalto. O mesmo pode ser dito de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, a quem caberia deflagrar um eventual processo de impeachment. Como se vê, resta à sociedade civil tomar as rédeas da situação em defesa do direito ao voto, as urnas eletrônicas, e, por extensão, a própria Democracia.


