* Carlos Assis
Vivemos uma crise de saúde mental no Brasil, que se reflete de forma direta no mundo do trabalho. E, ao que tudo indica, os esforços do Poder Público e das empresas para frear a crise têm sido tímidos.
Em Sergipe, o número de licenças médicas concedidas por questões de saúde mental saltou de 2,3 mil, em 2023, para 3,6 mil no ano passado, um aumento de 60,5%. Em todo o país, em 2024, foram quase 500 mil afastamentos do trabalho pela mesma causa.
Os dados são do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho e resultam em perda de produtividade, aumento de custos para as empresas e para o sistema de saúde, além da redução da capacidade de inovação da economia.
Apesar da gravidade, a resposta institucional no Brasil tem sido insuficiente. A Lei nº 14.831, sancionada em março de 2024 para criar o Certificado de Empresa Promotora da Saúde Mental, até hoje não foi regulamentada e segue sem efeito prático. Já a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), atualizada para incluir riscos psicossociais como assédio, estresse e sobrecarga na política de saúde e segurança do trabalho, teve sua entrada em vigor adiada para 2026, muito em função da pressão das empresas que resistiam à sua implementação.
Nesse contexto, os dados do Anuário Saúde Mental nas Empresas 2025, divulgado no Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), ajudam a dimensionar a distância entre discurso e prática. O índice geral de promoção da saúde mental pelas grandes companhias no Brasil passou de 5,05 pontos em 2024 para 8,19 neste ano. O crescimento foi puxado pelos resultados de um pequeno grupo de empresas que, efetivamente, transformam discurso em ações concretas. No entanto, em um ranking cuja pontuação máxima é 16, isso mostra que estamos muito aquém do ideal. O estudo, que analisou relatórios das próprias organizações, mostra ainda fortes contrastes entre setores e empresas. É esse o propósito do Anuário: provocar as organizações a saírem do discurso e adotarem estratégias efetivas de cuidado.
Ainda existe uma cultura empresarial que enxerga incompatibilidade entre aumentar a lucratividade e promover o bem-estar, como se fosse uma coisa ou outra, mas trata-se de uma coisa e outra. É possível conjugar o bem-estar dos colaboradores com o retorno para os acionistas. Estudos demonstram o impacto positivo dos investimentos em saúde mental. Análises da McKinsey apontam retorno de até quatro vezes para cada dólar investido, o que é ratificado pela National Safety Council / NORC (EUA). Pesquisa da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG) aponta que transtornos mentais causam prejuízo às empresas brasileiras equivalente a 4,7?% do PIB.
Mas, se investir em saúde mental vale a pena, devemos entender por que ainda predomina a hesitação em ampliar ações de promoção do bem-estar. O desafio central é cultural. A escuta verdadeira dos colaboradores exige coragem das lideranças, que passam a lidar com a subjetividade em um mundo guiado pela objetividade. Quando se abre esse espaço, não basta coletar informações: é necessário agir a partir delas e falta a vontade política de colocar a cultura no centro e encarar o tema com seriedade.
O Brasil não precisa apenas de novas leis ou normas, mas de regulamentações eficazes, fiscalização ativa e, sobretudo, lideranças dispostas a enxergar que saúde mental não é custo, e sim investimento estratégico. A crise é evidente, mas também uma oportunidade. O risco é perdermos essa chance, deixando a saúde mental confinada a índices frios, leis paradas e normas adiadas.
* Carlos Assis, fundador do Instituto Philos Org e editor do Anuário Saúde Mental nas Empresas


