Inocêncio Nóbrega
A morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, tornou-se uma senha de que precisava Carlos Lacerda, jornalista e político desde 1948, para desenvolver sua ação conspiratória, ao pregar, abertamente, a “ditadura a prazo fixo”. Nos meios de comunicação disponíveis considerava havermos entrado em pleno ciclo revolucionário, um inevitável caminho pela redenção dos costumes políticos, no combate à corrupção, no que só seria possível pela adoção do golpe. Fase inaugurada na gestão do vice-presidente Café Filho, no entorno da posse de Juscelino/ João Goulart, recém-eleitos como últimos postulantes ao Catete.
A tese lacerdista prevalece ao defender a nulidade da chapa vitoriosa, de não alcançar a maioria absoluta de votos e de haver agregado, na sua campanha, simpatizantes do antigo Partido Comunista. Cardiopata, Café Filho é hospitalizado; Carlos Luz, pres. da Câmara, assume, ambos destituídos do cargo, por decisão da Câmara dos Deputados, suspeitos de golpismo. Gen. Teixeira Lott, Ministro da Guerra, função que vinha exercendo desde o titular anterior, é demitido. Homem íntegro, democrata e legalista. Experiente, acima de tudo, descobre o novo lema dos empedernidos udenistas: “intenções de golpe”, frustrados com as tropas nas ruas, postas pelo demissionário e ascensão presidencial de Nereu Ramos, a 11.11.1954, tranquilizaram a posse de JK.
Janio Quadros, eleito pela UDN, com suas medidas de impacto, se diz vítima de forças inconfessas e renuncia (1961). Goulart, só assume graças à memorável Campanha da Legalidade, comandada por Brizola, com coragem enfrentando três ministros militares golpistas, antijanguistas.
Os lacerdistas retornam com maciço apoio ao Golpe 1964, mas Lacerda, ideólogo civil, é cassado. Não desistem, em 1982, com a fraude do Proconsult e militância de João Figueiredo, tentam evitar o triunfo de Brizola, nas eleições a Governador do Rio de Janeiro. O tiro sai pela culatra, o TRE aceita as denúncias e proclama o governante pedetista.
Sem arquiteto e sua amada sigla partidária vivos, remanescentes de seus bíblicos mandamentos acorrem a semelhantes práticas, desta feita contando com o beneplácito parlamentar. Temer é escolhido como troféu nesse jogo entre golpismo e constitucionalismo, entre ele e Pres. Dilma Rousseff. Os efeitos da Revolução Lacerda a levam reencarnar-se na pessoa de Bolsonaro, não pelos inflamados discursos e gigantismo jornalístico originários, que aos brasileiros empolgavam, mas pelos atributos paranoicos de liderança, se comparado com nossa vontade democrática. Lott, revive em Flávio Dino. Eis como vejo, à luz da história, as ocorrências de 8 de janeiro.
Inocêncio Nóbrega, jornalista


