* Antonio Passos
Raramente tenho ido a shopping centers. Por alguns motivos: uma atitude de resistência ao consumismo, uma iniciativa solidária em favor da sobrevivência do antigo centro comercial da cidade e ainda por uma razão pragmática imediata. Todas as coisas nos shoppings, de modo geral, são mais caras que do lado de fora.
Mas, quero confessar, antes de entrar no tema principal deste artigo, que já fui um frequentador de shoppings… Quando a chegada do primeiro foi anunciada em Aracaju e eu soube que funcionaria entre as 10 e as 22 horas, bradou minha juvenil irreverência tabaroa: – Só mesmo aqui um shopping vai fechar assim tão cedo, as dez da noite.
Eu ouvia a palavra a toda hora, mas, certamente, não sabia direito o que seria aquilo, um shopping. A amiga Gabriela Caldas que estava ao meu lado e já conhecia shoppings em outras cidades, avisou-me: "Em todos os lugares é assim. Shoppings fecham nesse mesmo horário." Quando foi inaugurado o Riomar, eu e ela – a mesma amiga – tocamos fogo em um parafinado copo de refrigerante, já vazio. O fogaréu crepitou sobre uma mesa na praça de alimentação e seguranças nos cercaram… Nós éramos góticos, "darks" e queríamos dizer isso ao mundo.
Depois surfei na onda da afirmação pelo consumo. As compras e a circulação pelos corredores dos shoppings tornaram-se atitudes bem relevantes… Passou.Semana passada, entretanto, uma série de fatores me levaram a um shopping. O principal deles: comprar um livro – quase não existem mais livrarias fora dos shoppings. Cinema, em Aracaju, resiste um. O Vitória, solitário, nos fundos do Centro de Turismo, no antigo centro da cidade e na contramão das dezenas de salas dos shoppings, consegue manter a melhor das programações.
O que mais me chamou a atenção nessa recente ida a um shopping não tem nada a ver com o que relatei até agora. O vi logo do lado de fora, ao cruzar a catraca e ouvir a mecânica mensagem de incentivo às compras, sem nem precisar penetrar no frescor do ar-condicionado central. O estacionamento, por onde sempre vaguei em primeira marcha, buscando um raro lugar para estacionar, dessa vez, eu o encontrei repleto de vagas disponíveis… Nunca o tinha visto assim, tão oferecido!
Não sei onde os consumidores foram parar. Não sei onde estão as dezenas ou centenas de carros que antes entupiam o estacionamento do shopping. Quanto a mim, como já adiantei, tenho, entre outros, um motivo bem pragmático para não ir ao shopping: economizar dinheiro. Acho que no ano que vem isso vai piorar. Sou agora aposentado e, após mais de uma década recebendo reajustes salariais todo mês de janeiro, este ano não houve sequer a reposição das perdas com a inflação. Em 2020 também continuaremos zerados, com um agravante: a partir de março teremos todos um novo desconto que pode chegar até 500 reais por mês, por força da reforma da previdência. Ou seja, pela primeira vez desde 1994, quando ingressei por meio de concurso no serviço público federal, terei uma redução imposta ao salário líquido. Com isso, acredito, eu e todos que estão no mesmo barco apertaremos ainda mais o cinto.
Dirigindo até o shopping ouvi no rádio que muitos pescadores e marisqueiras em Sergipe já estão vivendo de favores alheios para não passar fome, por causa do gigantesco e atroz derramamento de óleo que veio grudar nas praias do Nordeste, associado à evidentes omissões de responsabilidade… Mês passado, também disseram os noticiários que entre 2018 e 2019 houve crescimento da desigualdade social no Brasil – após mais de uma década de redução. Enquanto o poder de compra dos nossos salários pagos em real derrete, disparam o dólar e os preços dos combustíveis, do gás de cozinha e de diversos outros itens de consumo corriqueiro…
* Antonio Passos é jornalista


