Estratégia nacional para transformar minerais críticos em tecnologia, neoindustrialização, empregos qualificados e desenvolvimento sustentável
* Luciana Santos
O Brasil vive um momento decisivo diante de uma das agendas estratégicas mais importantes do século XXI. O debate sobre terras raras e minerais críticos vai muito além da mineração. Ele diz respeito ao futuro do desenvolvimento nacional, à nossa capacidade de inovar, de fortalecer a indústria brasileira e de assegurar soberania em um mundo cada vez mais orientado pela tecnologia.
As terras raras estão presentes em setores fundamentais da economia contemporânea. Estão nos celulares, computadores, carros elétricos, turbinas de energia limpa, baterias avançadas, sistemas eletrônicos de alta precisão e em tecnologias estratégicas para a defesa e a transição energética. São insumos essenciais para a nova economia global.
Por isso, o desafio do Brasil não é apenas possuir essas riquezas. O verdadeiro desafio é definir, com estratégia e compromisso nacional, como elas servirão ao desenvolvimento do nosso povo.
O Brasil tem potencial para ocupar posição de destaque nessa cadeia estratégica. Mas não podemos tratar esse tema de forma ingênua ou limitada à lógica da simples exportação de matéria-prima. Nossa responsabilidade histórica é transformar recursos minerais em conhecimento, inovação, capacidade produtiva, emprego qualificado e soberania tecnológica.
Discussões dessa magnitude demandam pensamento de longo prazo. No âmbito das terras raras, é vital estruturar uma diretriz nacional para integrar mineração, ciência e indústria. É justamente nessa intersecção que a liderança do Estado assume protagonismo.
Precisamos de legislação moderna, coordenação institucional e planejamento estratégico para garantir que os minerais críticos estejam a serviço do interesse público e do projeto nacional de desenvolvimento. O Conselho Nacional de Política Mineral cumpre papel importante, mas essa agenda também envolve diretamente o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, porque estamos falando da capacidade do Brasil de transformar potencial geológico em liderança tecnológica.
Não se trata apenas de extrair. Trata-se de dominar conhecimento, desenvolver tecnologia, agregar valor e fortalecer competências nacionais.
Quando o mundo disputa ativos minerais estratégicos, o Brasil precisa atuar com responsabilidade, inteligência e visão de futuro. Não podemos aceitar uma inserção subordinada nessa nova economia. Nosso compromisso deve ser com a construção de uma estratégia que fortaleça a indústria brasileira, impulsione a pesquisa, gere oportunidades e consolide nossa autonomia.
Terras raras são minerais críticos, mas podem ser também instrumentos decisivos para um novo ciclo de desenvolvimento nacional.
Temos diante de nós uma oportunidade concreta de conectar riqueza natural à neoindustrialização, à inovação e à soberania.
O século XXI exige que o Brasil deixe de ser apenas exportador de potencial para se tornar protagonista na produção de conhecimento, tecnologia e desenvolvimento sustentável.
Esse é o nosso desafio: transformar riqueza mineral em soberania, inovação e futuro para o Brasil.
* Luciana Santos, ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e presidenta licenciada do PCdoB. Engenheira eletricista formada pela UFPE, foi vice-governadora de Pernambuco, prefeita de Olinda por dois mandatos e deputada estadual e federal.


