Trevoso era bicho solto no mundo

* Thiago Fragata

São Cristóvão, o ano era 1990, Dona Creuza vestia roxo por conta da promessa feita ao Senhor dos Passos, pediu pelo filho desaparecido há 10 anos. Era como se fosse um luto, não saber se estaria vivo Luiz Carlos, o popular Trevoso, mas ela acreditava em milagres. A rapaziada do bairro concordava que ele foi o maior craque da pelada no campinho da Fábrica Velha, insuperável antes e depois que “sumiu no mundo” com uma garota de nome Terezia. Confesso que por um tempo fiquei fascinado por essa ideia, a mulher que “roubava” o cara da sua família. Escutei versões e versões da estória contada pelas irmãs dele, acerca do sumiço, viagem sem despedidas, abdução pela paixão arrebatadora. Alguns comovia-se com aquilo, lamentavam que “o pobre menino da Creuza foi seduzido”. Havia quem julgasse a menina uma vilã, sequestradora, será?
A verdade é que Trevoso somou no tráfico de cocaína, no mercado capitaneado pelo pai da namorada, Batist, e assumiu codinome Trevas. Assim que saiu “promoção” resolveu deixar a pacata cidadezinha de São Cristóvão, parada demais se comparada as ambições. Visando proteger “os seus” preferiu ir sem olhar pra trás. Então migrou com a trupe para o estado do Mato Grosso do Sul, colado a nova “família”. Dali atravessou fronteira paraguaia com documentos falsos. Passou alguns anos transportando muamba, realizando pequenos delitos; gozava regalias desde o início da jornada por conta da posição de affair de Teresia, filha do chefão. Tudo isso mudaria depois de 9 anos…
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O fundador da organização criminosa, conhecido como Pablo Cabeça (PC), cumpriu pena por 15 longos anos, ele expandiu seus negócios além-fronteiras, estava no auge quando foi capturado numa operação da Policia Federal. Desde então o seu primo Batist, chamado 02, pai de Teresia, assumiu o comando. Não tardou para que todos as lideranças fossem substituídas por gente da confiança do novo chefão. Da prisão, o velho lobo tomou conhecimento das manobras descabidas e pior, escapou 2 vezes da morte encomendada pelo parente. Finalmente, havia chegado hora de deixar a prisão e reassumir o controle de tudo. Mesmo tomando todas as precauções, Batist capitulou numa emboscada articulada pelo vingador. Para a “sobrinha” Tesla, nome carinhoso, PC tinha outros planos…
Ao tomar conhecimento da liberdade do tio, ela decidiu fugir com o amado pois sabia que a vindita contra o pai era inevitável e, certamente, não sairia ilesa do acerto de contas. O casal decidiu rumar para algum estado do nordeste, viajando pelo litoral, ora de barco, ora de ônibus. No entanto, numa manobra arriscada de troca de embarcações, por descuido somado aos enjoos, Teresia caiu no mar e sumiu diante dos olhos aflitos de Trevoso. Dias depois, jornal noticiou corpo da jovem encontrada na praia, no bolso documentos e passagens revelavam seu nome e destino planejado. A pista sobre o paradeiro do sujeito fichado como Treva, quem PC jurou aniquilar, estava ali…
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Era uma manhã dominical ensolarada, na ex-capital sergipana, e a Dona Creuza havia retornado da igreja Matriz, aonde rezara pela volta do filho perdido. Sua casa, aos domingos, era dia de encontro, de comunhão familiar, visto que todos os filhos visitavam os genitores, almoçavam juntos. Eis que Trevoso adentra casa e o que se viu foram gritos e perplexidade, risos e soluços, mãos erguidas aos céus, era a matriarca agradecendo ao Senhor dos Passos aquele milagre. Emocionados, todos acolheram e escutaram atentos, validando entre lagrimas a versão contada pelo ente desaparecido há 1 década. Diante da chantagem que recebeu da quadrilha chefiada pelos tios da namorada, tomou a melhor decisão visando proteger família. A versão não convenceu os 2 irmãos mais velhos que silenciaram naquele momento.
As duas semanas seguintes foi de reencontros com amigos e familiares, também de muita pressão por parte dos irmãos que exigiam a verdade dos fatos, afinal eles assistiram a notícia de uma jovem encontrada na praia!
Manhã de sábado, Trevoso exercitava-se na pracinha do bairro quando percebeu olhares furtivos na sua direção. O cheiro de emboscada sentia a distância por conta da experiência acumulada na vida pregressa. Então, fez carreira e pulou muro do sítio do tio Valmir, outro que não acreditava nas pabulagens do sobrinho; põe-se a correr velozmente na direção do Apicum Merem. Na fuga espetacular, pungou no trem que passava, surfar na rabada do trem era sua brincadeira predileta na juventude. Foi assim, acreditem, desnorteando os persigas que danou-se pela segunda e última vez. Trevoso era mesmo um bicho solto no mundo.

*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias – São Cristóvão/SE. E-MAIL thiagofragata@gmail.com

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