UM OLHAR SOBRE A AGRICULTURA BRASILEIRA

Manoel Moacir Costa Macêdo

Na perspectiva setorial e da “parte”, distante das contradições do “todo”, a exemplo da persistente desigualdade e dos sofríveis indicadores de educação, saúde e segurança, a produção agropecuária brasileira, é um caso isolado de sucesso. Nas três últimas décadas, ela cresceu mais do que a média mundial e projetou o Brasil como uma potência agropecuária.
Para um País marcado pela escravidão, e situado na economia internacional do trabalho, como fornecedor de commodities primárias, desigual e perdulário com os seus naturais, os resultados da agropecuária brasileira, são destacados globalmente. Para alguns um “orgulho nacional”, tal qual o futebol e o samba. Para outros, a reprodução do modo colonial de produzir em novas bases. No plano da macroeconomia, o setor agropecuário tem sido o único superavitário na balança comercial brasileira e com capacidade de ofertar alimentos suficientes para a segurança alimentar da população brasileira. A fome dos brasileiros e brasileiras tem como causa a carência do poder de compra de comida pelos pobres.
Chama atenção da agropecuária os ganhos de produtividade dos sistemas de produção, associados às inovações tecnológicas. Estima-se uma safra agrícola de mais de trezentos milhões de toneladas de grãos. Poucas nações subdesenvolvidas desenvolveu tecnologias nessa magnitude, mesmo detendo limites territoriais. Possuímos arranjos organizacionais de ciência, tecnologia e inovação nos níveis federativos, referenciados em ações de pesquisa, ensino, assistência técnica, fomento, e extensão rural. Destaque para o empreendedorismo dos produtores rurais e os incentivos estatais, numa arena competitiva e protecionista globalizada.
O Brasil alberga estruturas públicas e privadas para a produção agropecuária destacadas no mundo tropical, a exemplo da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, universidades e organizações estaduais, a exemplo do outrora vibrante Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária -SNPA. Não é de hoje, que a pobreza, e o descuido com o meio ambiente, não são mais justificativas para o desmatamento, incorporação de novas áreas, produtividade e distanciamento do uso de tecnologias apropriados para os vários modos de produção agropecuária.
A produtividade da agropecuária brasileira segue os fundamentos da teoria da “inovação induzida”, poupa terra, trabalho e maximiza a inovação tecnológica. Não estão consideradas com a devida acuidade as externalidades, a exemplo do desemprego, mobilidade rural e restrições ambientais, intrínsecas ao modo capitalista de produção. Na atualidade, as pressões globais, protagonismo de consumidores por alimentos saudáveis e importadores atentos ao modo ético de produzir, impõem novos desafios à agricultura brasileira. Estão postas as tendências de uma agricultura verde, de baixo carbono, trabalho ético e de comercio justo.
As pistas estão visíveis na direção de um “novo paradigma tecnológico” à produção agropecuária: aumentar a produtividade em sintonia com a sustentabilidade, alimentação saudável, trabalho justo e “saúde única”.

Manoel Moacir Costa Macêdo é engenheiro agrônomo e advogado

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