Na “salva” junina (espécie de boas-vindas à entrada do mês de junho, comemorada com batucadas e muitos fogos em prol dos santos: Santo Antônio São João e São Pedro), surgida da força do movimento popular, como de praxe, à meia noite de 31 de maio, houve “espoucar de foguetes, bimbalhar de sinos, sons de tamborins, cuícas e pandeiros
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* Acrísio Gonçalves de Oliveira
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Eram anos 1940. Após os torpedeamentos de navios na costa sergipana, em agosto de 1942, o passar dos dias dos estancianos seguiriam atribulados. Por conta do ataque aos navios e da sua destruição, Estância se envolveria no resgate de sobreviventes, prestando ajuda aos feridos. Dois anos depois, as tensões continuariam e se intensificariam, pelo menos para algumas famílias, principalmente depois do envio dos pracinhas em 1944, entre os quais estariam incluídos alguns jovens da Cidade Jardim. Tendo os aliados vencido os nazistas, em 2 de setembro de 1945 o Japão assinaria a rendição, vindo daí o término oficial da Segunda Guerra Mundial. De acordo com os dados estatísticos de um estudioso da época, a guerra vitimava 10 mil vidas por dia, como também deixara mutilados, cegos, loucos e doentes incuráveis, cerca de 10 milhões de pessoas.
Finalmente chegaria 1946 e com ele junho. Nessa data, quando já havia sido varrida a mortal batalha, Estância se mostrava robusta. É que durante o período da Grande Guerra o junino estanciano padeceu por falta de entusiasmo. Agora os tempos eram outros. Pensavam seus fogueteiros realizar uma festa à altura do tradicional costume que há décadas sempre tomava corpo na cidade. Na Rua da Miranga, por exemplo, na época uma das principais vias de maior representatividade da citada tradição, o Souza Pires já preparava “algumas centenas de busca-pés” para comemorar o São João. Sob suas expensas, estava prevista no dia do “precursor do Messias” uma festa religiosa.
Na “salva” junina (espécie de boas-vindas à entrada do mês de junho, comemorada com batucadas e muitos fogos em prol dos santos: Santo Antônio São João e São Pedro), surgida da força do movimento popular, como de praxe, à meia noite de 31 de maio, houve “espoucar de foguetes, bimbalhar de sinos, sons de tamborins, cuícas e pandeiros”. Para dar sustento às comemorações de entrada do mês de junho, conforme a imprensa, ali se achavam a postos espetaculares fogueteiros, como Antônio Maceno (Rua Nova), Edson Siqueira (Botequim) e João Profeta (Porto d’Areia). Este último, aproveitando-se dos repiques dos sinos da Matriz, então ouvidos nos quatro cantos da cidade, conduziu um grupo de pessoas e saiu às ruas convidando os devotos para os festejos juninos. A população reagiu positivamente. Sentiu-se contagiada.
A Rua Nova, outro núcleo referencial dos festejos, foi palco principal da salva. Nesse tempo a importante rua começava a receber pavimentação a paralelepípedo, por isso a prefeitura, comandada por Raymundo Silveira Souza, talvez por algum preciosismo, proibia acender fogueiras nelas. Mas as fogueiras não deixariam de arder em outras vias. Naquele anoitecer, Antônio Maceno passou a comandar o movimento do pisa-pólvora, o qual seria animado pelos versos da cantoria de uma batucada, elemento cultural característico das brincadeiras juninas citadinas. À meia noite, a famosa guerra de busca-pés. Centenas de fogos faiscariam o ar e o chão das ruas da Princesa do Piauitinga. Como diria um jornal da época, tudo parecia “exceder as expectativas”. Tudo parecia encanto. Poesia no ar.
Também nesse começo de junho, o Asilo Santo Antônio (casa acolhedora fundada em 1907 e ainda hoje existente) passaria a realizar, como fazia todos os anos, as trezenas a seu santo patrono. No dia 13, a liturgia teve acompanhamento da Lira Carlos Gomes. À tarde, no jardim do asilo, em um palanque a filarmônica Senhor do Bonfim apresentou uma retreta. O povo prestigiou o evento.
Na véspera e no dia de São João, domingo e segunda respectivamente, previam-se renhidas “batalhas” de busca-pés em localidades distintas da cidade. A imprensa teria sido informada pelo entusiasta Antônio Sapato Branco que na Santa Cruz haveria uma corrida de barco de fogo a se realizar na “Praça da Feirinha”, cuja saída partiria da frente da casa do fogueteiro mestre Carlos Matos. Convém esclarecer que no amplo espaço da dita praça existia uma famosa feira, que era fomentada pela Fábrica Santa Cruz. Consta que ali teria sido, nas primeiras horas da noite de 24, o local mais festivo. No centro da cidade, a festa foi patrocinada pelo fogueteiro Jovelino Batista, que fez correr mais um barco de fogo, havendo em seguida a dança do momento: o samba de coco. Oriunda dos quilombos, era uma manifestação bastante expressiva no Berço da Imprensa Sergipana. Já da Rua das Alagoas (hoje um bairro) se preparavam antigos fogueteiros, como o citado João Profeta e José Raimundo, dentre outros. Figurava na programação que o início dos festejos seria às 4 da madrugada de domingo. Segundo o jornal Voz do Povo, para segunda feira estava “marcada a corrida de um cavalinho de fogo”. O artefato seria colocado num arame e correria às 20 horas. O tal gênero pirotécnico ainda era inédito em Estância e só era visto no Rio Grande do Sul. Depois da apresentação da anunciada novidade pirotécnica, busca-pés, batucadas e sambas tomariam conta das ruas.
Na véspera e no dia de São Pedro, além de ocorrerem batalhas de busca-pés nas ruas da Miranga e das Alagoas, houve bailes no Cruzeiro Sport Clube e no Grêmio União Têxtil. Também houve danças nas ruas mais afastadas.
Por tudo isso, o junino estanciano do primeiro ano do pós-guerra, embora tivesse Estância reconhecida tradição, nos pareceu traduzir-se numa verdadeira comemoração do fim da agourenta guerra mundial, que por seis anos tragou milhões de vidas. Quem sabe, por regozijo, o povo tenha ido participar dos festejos nas casas ou nas ruas. Alguns, de acordo com a classe à qual pertencia, preferiram os salões mais luxuosos da cidade, enquanto outros, seguindo os faróis das fogueiras, se embalaram nas batucadas, nas cantigas de roda, nos sambas de coco dos becos ou dos salões mais humildes suburbanos.
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* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador e escritor, professor do Estado e da Rede Pública de Estância


