Uma juventude que não acredita em nada, nem no futuro

* Gregório José

Durante décadas venderam aos jovens americanos uma promessa digna de comercial de margarina neoliberal: estudem, façam faculdade, aprendam mandarim, dominem tecnologia, trabalhem duro e o mercado lhes abrirá as portas do sucesso. Funcionou tão bem quanto aquelas dietas milagrosas anunciadas às duas da manhã.
Agora a conta chegou.
Uma pesquisa da Gallup revelou algo devastador para a maior economia do planeta: os jovens americanos estão mais pessimistas com o mercado de trabalho do que qualquer outra geração do país – e mais pessimistas do que jovens de quase todo o resto do mundo. Apenas 43% dos americanos entre 15 e 34 anos acreditam que este seja um bom momento para conseguir emprego. Entre os mais velhos, o índice sobe para 64%.
Olha a ironia: justamente a geração criada dentro do culto à produtividade virou a geração que mais desconfia do próprio futuro.
E talvez estejam certos.
Porque o capitalismo contemporâneo conseguiu realizar um feito extraordinário: transformar qualificação em ansiedade permanente. O sujeito estuda até os 30 anos, faz pós-graduação, MBA, intercâmbio, curso de liderança, networking no LinkedIn e termina disputando vaga de estágio com inteligência artificial.
O sonho americano virou um processo seletivo de sete etapas.
Com vídeo de apresentação.
Teste comportamental.
Dinâmica em grupo.
E salário emocional.
O detalhe mais cruel da pesquisa é que o pessimismo cresce justamente entre os jovens mais escolarizados. Ou seja: quanto mais estudo, maior o medo. A universidade, que antes vendia ascensão social, hoje entrega boleto estudantil e crise de identidade profissional.
A verdade é que o mercado mudou sem avisar ninguém. As empresas continuam exigindo experiência de quem acabou de sair da faculdade, enquanto substituem funções iniciais por algoritmos que não pedem férias, vale-refeição nem terapia.
E aí nasce essa geração estranha: jovens hiperconectados, superqualificados e absolutamente inseguros.
Nos anos 80, o medo era perder emprego para japoneses.
Nos anos 90, para chineses.
Agora é para um robô simpático chamado “assistente virtual”.
A pesquisa da Gallup mostra ainda que essa diferença geracional é praticamente uma anomalia global. Em quase todos os países, os jovens costumam ser mais otimistas que os mais velhos. Nos Estados Unidos aconteceu o contrário.
Talvez porque os mais velhos ainda tenham comprado casa antes da especulação imobiliária transformar aluguel em artigo de luxo. Talvez porque tenham entrado no mercado quando diploma ainda significava alguma garantia. Ou talvez porque estejam aposentados demais para perceber o incêndio.
Enquanto isso, os jovens vivem o capitalismo do esgotamento: trabalham mais, ganham menos, alugam tudo e possuem quase nada. Nem o carro é deles. Nem a música. Nem o filme. Nem o software. Nem a casa. O sujeito agora assina a própria sobrevivência em mensalidades.
O curioso é que Wall Street continua comemorando recordes, as big techs seguem bilionárias e os indicadores econômicos insistem em dizer que está tudo relativamente bem.
Mas existe uma diferença brutal entre economia funcionando e população acreditando no futuro.
O jovem americano está dizendo algo que governos, bancos e gurus corporativos fingem não ouvir: a sensação de estabilidade desapareceu.
E quando uma geração inteira perde a confiança no amanhã, o problema deixa de ser econômico.
Passa a ser civilizacional.
Porque nenhuma sociedade permanece saudável quando seus jovens acreditam que trabalhar duro talvez não sirva mais para muita coisa.

* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo

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