Vida do major João Teles antes de tornar-se militar

* Afonso Nascimento

O major João Teles de Menezes veio ao mundo em um dia de verão de 1903. Nasceu na então Casa Paroquial de Laranjeiras, na rua do Sol, hoje chamada rua da Independência, bem no centro da cidade, ao lado da imponente Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus.
Uma curiosidade sobre seu nascimento é que ele somente foi registrado pelas leis civis em 1928. Talvez a sua família não tivesse tomado conhecimento da chegada da República.
Sua mãe Clothildes Teles de Menezes era filha Philomena Menezes Barrozo, filha do proprietário da fazenda Merém, e do monsenhor Eliziário Vieira Muniz Teles – por sua vez, filho do major Gonçalo Vieira de Mello e de Rita Perpétua de Jesus. Eliziário e Philomena tiveram oito filhos, entre os quais Clothides, que fez alguns estudos, tornando-se professora da Província de Sergipe, portanto, funcionária pública. O pai de Clothildes era um homem rico da Igreja Católica, monarquista, que possuía muitas terras, fazendas, gados, escravizados, e que foi deputado provincial por duas vezes. Ela era muito religiosa e por isso ganhou o apelido de “santinha”.
O pai de João Teles era um comerciante chamado José Hermenegildo Telles de Menezes, filho de Hermenegildo José Teles de Menezes com Mirena Maria Teles de Menezes, funcionária pública dos Correios em Laranjeiras. Não foi possível saber se grande ou pequeno comerciante, se varejista ou atacadista e onde se localizava a sua casa de comércio, se no centro ou na periferia da cidade.
Juntos, o pai e a mãe de Clothildes não formavam uma família rica em Laranjeiras, mas com origens aristocráticas e de classe média.
Ambos cresceram sob a influência da monarquia e da escravidão.
A cidade onde nasceu João Teles estava entre os mais importantes centros econômicos, políticos e culturais de Sergipe. Laranjeiras era uma cidade rica, com suas belas colinas, seus velhos trapiches, suas igrejas, suas ruas pavimentadas com grandes pedras e seus casarões coloniais nem todos de pé hoje em dia. Embora a sua economia não tivesse mais a prosperidade da segunda metade do século anterior, ainda era uma das principais fontes da riqueza sergipana. Seus belos canaviais produziam cana-de-açúcar para exportação. O seu mercado (ou a sua feira) estava situado à beira do rio Cotinguiba, recebendo mercadorias, entre as quais, alguns anos antes, estavam incluídas “mercadorias humanas”. A cidade possuía um importante comércio e serviços, com bancas de advocacia, consultórios médicos e outros escritórios de profissionais liberais.
Para chegar a Laranjeiras ou partir dela, usavam-se os meios de transporte fluviais (barcos, canoas, etc.) e terrestres (carros de bois, carroças, cavalos e outros equinos etc.). No início de século XX, ainda não tinham chegado o transporte ferroviário com suas locomotivas e seus vagões e o transporte rodoviário com suas estradas e seus carros e, mais tarde, seus caminhões. Também não tinha luz elétrica. Os seus meios de comunicação eram os correios e os telégrafos.
Politicamente, de Laranjeiras saíram muitos dos políticos que animaram a política sergipana já então grandemente centralizada em Aracaju. Culturalmente, era uma cidade conhecida como “o berço da cultura” (europeia ou popular?) em Sergipe, posto que em Laranjeiras nasceram muitos dos intelectuais famosos sergipanos (o filólogo e historiador João Ribeiro, o pintor Horácio Hora, etc.). No ano de 1903, eram governador de Sergipe Josino Menezes e presidente do Brasil Rodrigues Alves.
João Teles, por causa das origens religiosas de sua família, pode-se imaginar que tenha sido um menino que muito frequentou a catedral de Laranjeiras, participou de procissões e de outras atividades religiosas. No catolicismo colonial conservador do começo do século XX (e vigente ainda hoje) está uma das bases da formação de seus valores.
Sua escolaridade foi baixa, primeiro com sua mãe e depois em escola. Estudou o curso ginasial no Colégio Nossa Senhora Sant`Anna, do qual foi diretora a professora Possidônia Bragança.
Como acontece com filhos de professoras, o home schooling foi inevitável. Embora Laranjeiras tivesse escola secundária privada, não chegou a frequentá-la. Faltava dinheiro à sua família para pagar esses estudos mais avançados.
O menino João Teles não deve ter podido jogar futebol. Esse esporte só estava começando no Brasil. Entre as suas brincadeiras de menino e de adolescente, podem ser incluídos os banhos de rio, passeios de cavalo, pescarias recreativas, chupar rolete de cana, comer goiabas pelas fazendas, caçar passarinhos etc.
João Teles perdeu parte de sua adolescência ajudando seu pai em sua casa comercial. Era a relação pai-patrão, através da qual o filho trabalhava com o pai e nada recebia em troca. Podia pesar as mercadorias e também ajudar no caixa. Ou fazer entregas. Em casa, o filho também devia obediência ao pai. Começando cedo no trabalho, tornou-se aplicado no que fará pelo resto da vida.
Chegando perto dos 18 anos, uma pergunta martelava na sua cabeça e na de seus pais: o que fazer da vida? Para alguém com pouca escolaridade, Laranjeiras não oferecia boas oportunidades de trabalho. Muito provavelmente por influência de militares em sua família, João Teles tomou conhecimento da fundação do 28º Batalhão de Caçadores em Aracaju. Era a primeira guarnição do Exército brasileiro em Sergipe. O jovem tomou um barco ou uma canoa e veio se apresentar como praça em Aracaju. Conseguiu o seu primeiro emprego como militar. Isso aconteceu em 1921.

* Afonso Nascimento, professor de Direito da UFS

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