**PUBLICIDADE
Publicidade

ZECA VIANA: UM CRONISTA INCENDIÁRIO


Avatar

Publicado em 27 de março de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Thiago Fragata
 
Clodomir Silva foi bacharel e um estudioso das coisas da História de Sergipe, da sergipanidade, legando o Álbum de Sergipe (1920) e Minha gente: costumes de Sergipe (1926). “Ele gostava de veranear em São Cristóvão, advogava de graça aqui, era primo de papai!” revelou-me a artista Vesta Viana (1930/2017) em uma entrevista. (1) Comparando fotografias, atento o quanto eram parecidos. Outro detalhe, seu pai Zeca Viana escrevia muito, sabia tudo a respeito do passado da ex-capital; possuía memória prodigiosa e cadernos anotados, nutrindo zelo especial por um que tratava da boêmia, a vida noturna de São Cristóvão. Infelizmente, dias antes de morrer, ele embalou tudo no colchão e ateou fogo! A pauta desse artigo é lucubrar as motivações desse cronista incendiário. José Viana de Sousa, popular Zeca Viana, trabalhou por muitos anos na Companhia Industrial São Gonçalo, de São Cristóvão, inclusive, amargou um acidente de trabalho que deixou sequelas. Aposentado, passou a dedicar-se a serviços variados. Toda vez que releio “Por amor de Dona Úrsula” e “Saco de areia”, causos coletados de oitiva nas ruas da velha capital e publicados por Clodomir Silva recordo o memorialista Zeca Viana. (2) Este morreu sem publicar uma linha, uma palavra. O insólito foi queimar sua produção na última semana de vida. A filha pintou a cena com detalhes. A questão a refletir, faço na forma de pergunta: o conteúdo dos cadernos era impublicável, por quê?
Primeira hipótese: revelava a vida pregressa de autoridades e outros figurões. Zeca Viana trabalhou por muitos anos na Fábrica São Gonçalo e conhecia gente de todos os bairros e povoados da cidade. Não lembro ao certo o cargo, se chefe de secção ou gerente de produção, algo do tipo. Enfim, ele flanava entre a diretoria e operariado, a raia miúda. Conhecia bem o universo da fábrica. Morando no centro histórico, vivia a política municipal, conhecia de perto os personas da política e das fábricas; sim, havia outra fábrica de tecidos, a Sam Christovão S. A. 
Zeca Viana viveu numa cidade beata, era casado com Noemia Soares. Acerca do conteúdo do tal caderno incinerado a filha confidenciou que descrevia com detalhes como funcionava a vida noturna da cidade, fosse nas fábricas, onde a terceira turma reinava e havia troca de turno, fosse na boemia do Beco do Açúcar e da Ripiada. O escriba incendiário traçou um paraleloda noite para trabalhar e folgazar, da fábrica ao bordel, explicitando que alguns circulavam nos dois ambientes. Reza um dito popular que para o bom entendedor meia palavra basta. Leitor(a), se esforce, não posso a essa altura comprometer Zeca Viana, o cronista incendiário! 
(…)
A primeira greve operária de São Cristóvão ocorreu, em 1935, como protesto contra o encarregado Penn Collidgs Menhinick, da fábrica Sam Christovão S.A., acusado de envenenar água visando castigar subordinados. Com isso quero chamar atenção para relação conflituosa entre trabalhadores e patrões no universo fabril da época, marcada por perseguições, punições, desconto e/ou suspensão de salário, demissão, etc. (3) As 2 fábricas de São Cristóvão não fugiam a essa regra. Cada fábrica tinha sua cartilha e ser admitido em sua estrutura significava acatar regras ou sofrer as consequências. 
Depois deste preâmbulo, reputo segunda hipótese para a “queima dos arquivos” de José Viana de Souza, o popular Zeca Viana: revela maus tratos e as injustiças que testemunhou. A exposição dos envolvidos, vítima ou mandante, ou ainda o “capataz da fábrica”, um lacaio que portava arma e chicote e ostentava poder de polícia perseguindo funcionários devedores. Depreende-se que o tempo da fábrica na cidade histórica não era um tempo de felicidade para todos. Publicar (tornar público) estas mazelas ou deixar texto que pudesse comprometer reputações e a integridade de alguém, ainda que postumamente, foi a condição inibitória para o genitor de Maria Vesta Viana.
Pesquisando as fábricas da ex-capital fiz descobertas pertinentes ao tema, a exemplo da “fronteira da lei”. Explico. “Da linha de ferro pra lá, delegado não mandava. A justiça que valia era da fábrica”. Havia mesmo um código de conduta que vigorava na região da empresa. Imagine o terror e o silêncio a sua volta; silêncio a base de ameaça, medo, demissão, juramento de morte. Famílias inteiras trabalhavam nas empresas, inclusive menores….
Pra finalizar, atirar mais lenha na fogueira de Zeca Viana, o cronista incendiário, imagine por um segundo, leitor(a), qual o comportamento dos patrões e seus asseclas no sentido de fazer valer sua vontade nas eleições, se tratando de garantir voto do operariado no seu candidato? Em São Cristóvão, os interesses escusos embalados pela diretoria das 2 fábricas eram diversos, fazer o prefeito municipal nas eleições, por exemplo, refletia numa menor carga de impostos recolhidos. 
Um adendo, o memorialista Zeca Viana ciceroneou Jorge Amado na cidade histórica. Muito antes da amizade iniciada em 1970, o escritor publicou Cacau (1933). No capítulo inicial, o romance social apresenta a personagem Sergipano, filho do dono de uma fábrica de tecidos, como morador da praça São Francisco, centro histórico de São Cristóvão. Existe muita verossimilhança na tragédia familiar que obriga o jovem a mudar para Bahia em busca de dias melhores. (4)Como se vê, a presença ou relação do ilustre intelectual com São Cristóvão carece de uma pesquisa acurada. O pesquisador(a) interessado(a) deve começar pelo acervo da Casa Jorge Amado,em Salvador, visto que nenhum papel rabiscado escapou ao ritual piromaníaco do cronista que na iminência da morte preferiu atirar seus trabalhos no fogo ao invés da fama. 
 
*Thiago Fragata é historiador, escritor e multiartista E-mail: [email protected]
 
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
CRÉDITO DA IMAGEM: Jorge Amado e Zeca Viana. Acervo Vesta Viana, São Cristóvão.
1 – Vesta Viana entrevista para Thiago Fragata. São Cristóvão, 1990.
2 – SILVA, Clodomir. Álbum de Sergipe, 1820-1920. São Paulo: O Estado de São Paulo, 1920.
__. Minha gente (Costumes de Sergipe). Aracaju: Livraria Regina, 1962.
3 – SILVA, José Lúcio Batista. O surgimento da indústria e do operariado têxtil em São Cristóvão (1912-1935). São Cristóvão, 2000. Monografia (Licenciatura em História – DHI/UFS).
4 – AMADO, Jorge. Cacau: romance. 42ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1983.
**PUBLICIDADE



Capa do dia
Capa do dia



**PUBLICIDADE


**PUBLICIDADE
Publicidade