Modo avião

Rian Santos

A campainha do telefone me dava calafrios. Isso, apesar de um imperativo profissional. Jornalistas, todo mundo sabe, vivem de trololó, à cata de informação, passam o dia inteiro de conversa com uns e outros. Quando o aparelho tocava, eu ouvia o silvo de um chicote.

A pandemia mudou tudo. Outro dia, Djenal me ligou, cheio de cana, com a língua enrolada. A conversa foi breve. Lorota muita, protestos de saudade. Quando a ligação chegou ao fim, entornei sozinho algumas cervejas, por minha própria conta. Era um sábado. A amizade faz dessas, nos deixa a todos mais leves.

Outro que gosta de sacar o telefone para saber dos seus próximos é Jozailto Lima. O hábito foi mencionado em texto de sua lavra, um aceno saudoso ao professor João Gomes Cardoso Barreto. Ao fim da leitura, comovido, tomei a decisão de ser mais atencioso com quem eu gosto – uma intenção ainda em vias de vingar em gesto.

Custa nada. A mim, me agrada saber, por exemplo, dos livros escangalhados pela curiosidade das pessoas a quem estimo. Como estão de amores. Quais as dores que lhes doem, na espinha e na alma. A intimidade não é conquista de grandes debates, mas de miudezas compartilhadas.

Passei anos sem telefone celular, desde o dia de um acidente na BR 101. O rombo na minha cabeça, vertendo sangue, não intimidou os urubus de tocaia no acostamento da estrada. Foi-se o aparelho, um gatilho de ansiedades tecnológicas. Ficaram as urgências da vida real – a superfície áspera do mundo ferindo os nervos na palma das minhas mãos, um formigamento estranho na ponta dos dedos.

Foi assim até o final do ano retrasado, quando uma viagem de última hora me obrigou a conhecer o tal do Smartphone. O sossego de saber a esposa sã e salva, em outro aeroporto, um vôo diferente, venceu a propalada resistência em relação ao sonho de consumo induzido a cada nova edição da Black Fraude. Abduzido por apps, açoitado por toda a sorte de alertas sonoros, mantenho o dito cujo de castigo no modo avião, desde sempre. A verdadeira paz, no entanto, conforto de verdade, há em receber notícias dos amigos.

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