* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
Quase diariamente encontro pessoas, nos mais diferentes ambientes, que me abraçam e registram: "Olhe, acompanho seus textos no jornal. Gosto muito. Não deixe de publicar as coisas que seu pai escrevia!". Então entendo toda a alegria que ele sentia ao receber o reconhecimento dos seus leitores.
Dia desses, numa livraria, uma respeitada professora me falou: "Nestes tempos em que as páginas dos jornais e os noticiários nas rádios e televisões só se ocupam de notícias ruins, violência, tragédias, corrupção e outras tantas coisas más, o seu artigo cumpre o importante papel de trazer esperança às pessoas, de mostrar que ainda podemos pensar num mundo melhor. E a vida é um ciclo, as coisas acabam se repetindo. As memórias que seu pai escrevia podem até não acontecer de forma idêntica, mas nos enchem o coração de esperança por um tempo mais feliz…".
Não consegui interrompê-la, não porque as palavras me massageassem o ego, mas porque as lágrimas que eu esforçava-me por não deixar cair dos olhos me travavam a garganta, não me permitindo pronunciar uma só palavra. Apenas abracei-a e, sentando-me numa poltrona, pus-me a refletir sobre o quanto a semente lançada por meu pai – o ‘Memorialista Raymundo Mello’ – há décadas, pôde gerar uma árvore que, como as plantadas nas ruas, nutre os que, anonimamente, sacam seus frutos e lhes apreciam o sabor. Obrigado, professora, pelas palavras, que, vindas da senhora, robustecem-se da autenticidade que o seu saber assegura.
Trago hoje uma publicação de meu pai no ‘Jornal do Dia’, edição de 19/12/2014 – um texto sobre o Natal, que ele intitulou "Eu pensei que todo mundo… (Assis Valente)". Fala, Raymundo Mello!
"Os festejos natalinos em Aracaju são tradicionais; eu os acompanho desde 1940, quando aqui cheguei, desfrutei e ainda desfruto de muita coisa que a época proporciona, a saber: Papai Noel, presépio, nascimento de Jesus, Missa do Galo, feirinhas de Natal.
A figura do Papai Noel só acrescenta a ideia de presentes, recepções, despesas e lucros para os comerciantes, sejam eles legal ou ilegalmente estabelecidos. Compra-se e vende-se de tudo, especialmente para o exercício de dar e receber lembranças, entre amigos, principalmente.
Em valor espiritual, não acrescenta nada – repito, é algo meramente comercial. Quem, em seus primeiros anos de vida, não foi iludido e acreditou que aqueles presentes que recebia eram obra do "Bom Velhinho", até mais ou menos 4 a 5 anos de idade, e tinha a seu lado "Papai Noel", roupa vermelha, barbas brancas e saco cheio de lembranças?
E quantas crianças mal aquinhoadas não lamentaram que o Papai Noel não emitiu o seu americanizado "rô rô rô", deixando presentes em seus sapatos colocados na janela? Tudo isso nos faz pensar! Mas, que se pode fazer? É continuar aceitando a figura.
Recentemente foi relido na Igreja Católica um dos bilhetes mensais de Chiara Lubich (Movimentos dos Focolares) registrando decepção sobre festejos natalinos em 1980, na Suécia, onde o homenageado, Jesus de Nazaré, quase nem era citado, só se falava em Papai Noel, presentes, encontros, festas. (…) Não era só na Suécia que Papai Noel era tão importante, aqui no Brasil, também. Hoje, a fé está mais forte e já se volta para o real personagem natalino, Jesus Cristo. Mas o Noel, resiste.
Presépios – obras lindas. Por mais simples ou sofisticados que sejam, inspirados nas narrações bíblicas, criados originalmente por São Francisco de Assis e desenvolvidos no mundo inteiro. Aqui em Sergipe também. Em Igrejas, (veja-se, principalmente, a Paróquia São Judas Tadeu – Frades Capuchinhos) na quase totalidade das paróquias, presépios bem montados e também em residências particulares. Peças em louça importada, peças de barro feitas manualmente e até em bonecos de tecido, mas distribuídas de forma esmerada. Todos os personagens bíblicos; e alguns, presépios particulares, sobrecarregados com peças que reproduzem de cidades nordestinas a personalidades folclóricas. Mas tudo bem arrumado.
Inspiram fé. Aplausos e incentivos para os instaladores de presépios. Houve época em que havia concurso de presépio e cada um esforçava-se mais, para promover seus trabalhos inspirados, onde o nascimento de Jesus era e é ainda hoje o ponto alto da cena.
Missa do Galo – de fato, celebração da Missa do nascimento de Jesus Cristo. Momento máximo de fé, celebrado à meia noite do dia 24 para 25 de dezembro. Missa solene, reunião das famílias, homilias bem preparadas, músicas religiosas oportunas, bem conduzidas e interpretadas. Na sede da Diocese, celebrada na Catedral e tendo como oficiante principal o Bispo titular ou quem dele fizesse as vezes.
Hoje, infelizmente, o horário da Missa de Natal mudou; não há segurança para os fieis e as celebrações se realizam às 19 horas, para que as pessoas, apressadas, recolham-se a seus lares, com medo. Mas as alegrias da Missa do Natal de Jesus, contagiantes, acompanham cada cristão e dão à Noite Feliz – como se canta – momentos de paz e esperança.
Finalmente, um pouco de memória das feirinhas de Natal. Elas eram, inicialmente, realizadas na praça Tobias Barreto, aquela que as pessoas gostavam de citar assim: "Siga rua Itabaiana ou Santa Luzia, saindo do Parque e sete trechos adiante, lá está a praça Tobias Barreto, com a estátua de Pinheiro Machado e a Igreja São José". Fácil, não? Não tinha erro para ir ou voltar.
E ali, naquela praça, embelezada para os festejos, tinha de tudo, principalmente, a Missa do Galo, os restaurantes, as mesas de jogo (roletas, cartas, dados, etc.), local especial para os bancos das famílias, particulares, lotados nos dias mais importantes e ocupados por populares quando as famílias iam para suas casas. Nunca foi roubado um banco ou uma cadeira que, às vezes, eram colocadas. Tinha palanque, onde a bandas de música do exército, polícia e corpo de bombeiros faziam, em revezamento, animadas retretas e tinha também o palanque dos reisados, cacumbis e a chegança de Zé do Pão, espetáculos culturais de nível, às vezes pouco entendidos.
E no fundo da praça (assim então considerado), aquela área que ficava em frente ao Colégio Patrocínio de São José, àquela época incompleto (só tinha metade construído), havia a rua do Egito, onde, em instalações bem simples, serviam-se os afamados cozidos, feijoadas, bifes, mal assados, caruru, peixes de vários temperos e, caranguejada, fritadas, e as doses de pinga de vários sabores. Após as 10 horas da noite, estava ali o melhor da festa – cantores, músicos, artistas em geral uniam-se aos que levavam suas famílias em casa e voltavam já sem gravata e paletó para um lanche, um jantar ou simplesmente tocar e cantar com uma garota de lado, até que as freiras do Colégio reclamavam a algazarra e a polícia chegava para encerrar a brincadeira e freiras e alunas internas conciliarem o sono.
Ah! – nem preciso dizer que roda gigante, balanços, sombrinha, onda, aviões e o Carrossel de Tobias eram presentes e funcionavam enquanto tinham clientes.
Nos anos 50, a feirinha, já bem modernizada para a época, serviço de som, transmissão ao vivo pelas rádios Aperipê e Liberdade, iluminação tida como feérica, foi transferida para a praça Olímpio Campos, onde funcionou até que esgotou a utilização daquele local, passou por outros lugares e hoje só ficou em fotos, lembranças e saudades.
Mas que era bom, divertido e alegre, não se pode negar, tampouco esquecer.
Papai Noel, presépio e Missa do Galo em novo horário, ainda funcionam.
Muito se tem escrito e falado sobre o Carrossel de Tobias, alegria de crianças e adultos que o conheceram. Eu mesmo, tanto fiz corridas naquele brinquedo saudável como criança e como adulto, a pretexto de acompanhar o filho.
O Museu da Gente Sergipana tem uma réplica do Carrossel muito bem feita e montada, mas, a meu ver, uma gota d’água num oceano de saudade.
O que aquele sempre lembrado e comentado instrumento de diversão merece é um estudo sociológico profundo, para que todos, definitivamente, entendam sua importância. (…)".
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A todos os que nos acompanham neste artigo semanal das terças-feiras aqui no ‘Jornal do Dia’, desejo um feliz e abençoado Natal. Muita paz!
* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br


