Paulo Nogueira Fontes
Na semana passada tivemos uma boa notícia relativa às homenagens prestadas pelo nosso Exército, através do 28 BC e Capitania dos Portos de Sergipe às vítimas sergipanas que morreram em decorrência do torpedeamento de navios mercantes nas costas sergipanas e baianas, particularmente aquele ocorrido em meados de agosto de 1942.
Sobre esse tema, em agosto de 2019 a convite da Academia Sergipana de Letras, através do seu Presidente o Dr. José Anderson Nascimento, estivemos participando como debatedor, da palestra proferida pelo grande Escritor e Memorialista Sergipano Murilo Mellins sobre esse tema tão apaixonante. Ocasião na qual expusemos a nossa modesta visão sobre aqueles acontecimentos marcantes para Sergipe, em particular para a cidade de Aracaju, conforme a seguir:
Muito embora diversos e ilustres intelectuais sergipanos já tenham se debruçado sobre o tema, acreditamos que essa matéria, na nossa visão, ainda é uma questão aberta às pesquisas mais aprofundadas, uma vez que verificamos lacunas, salvo melhor juízo, no que concerne ao fato de que não encontrarmos, em particular, algo substancioso com relação às vidas sergipanas perdidas em função dos torpedeamentos dos navios brasileiros, efetuados por submarinos alemães nas costas sergipanas.
Na nossa análise, destacamos o fato dos torpedeamentos terem sido efetuados pelo submarino alemão U -507, sob o comando do Capitão Harra Schachte m 15 e 16 de agosto de 1942,atingindo os navios Aníbal Benévolo, Araraquara e Baependy que causaram a morte de 549 pessoas e um ano depois,em julho de 1943, outro submarino alemão, o U – 185 torpedeou o navio Bajé nas costas da cidade de Estância, causando a morte de 28 pessoas.
Diante destes fatos pungentes, tão bem relatados na maioria dos textos, onde, em geral, buscou-se ressaltar os nomes desses submarinos alemães, dos nomes dos navios brasileiros e do número de vítimas, mas por outro lado, nos surpreendeu o fato deque, em geral,pouca referência é feita aos nomes dos passageiros sergipanos,tripulantes e respectivas famílias, cujas vidas naquele naufrágio foram destruídas.Como também,não encontramos nenhum relato de como ficaram os familiares das vítimas sergipanas, em termos de Amparo do Estado Brasileiro e da possível indenização por parte das seguradoras, já que eram passageiros dos navios pertencentes ao Lóide Brasileiro que, possivelmente, ao emitir os bilhetes para aqueles, estariam incluídos os seguros de vida.
Não encontramos também em nossa pesquisa, qualquer texto que pudesse nos esclarecer sobre um possível pedido de indenização por parte do Estado Brasileiro ao Governo Alemão após oi final da guerra, como assim o fez o Estado de Israel com relação às vítimas do chamado holocausto! Inclusive, porque o Brasil não havia, naquele momento, declarado guerra ou entrado no chamado “Estado de Guerra” com a nação germânica. O que só ocorreria em agosto de 1942, exatamente após os atos de agressão dos submarinos alemães supracitados.
Vale a pena também, lembrar algo gravíssimo que foi registrado naquela época, no que se refere ao que ocorreu às pessoas que, após perderem as suas vidas naquele episódio, os seus corpos que chegavam à praia foram vilipendiados e seus pertences saqueados, num ato de selvageria inimaginável em pleno século XX em Sergipe! Muito embora o inquérito presidido pelo o Dr. Enoch Santiago ter sido aberto à época sobre tais fatos,pelo que sabemos,resultaram inconclusivo e sem a devida identificação e punição dos seus autores.
Ainda podemos lembrar e ressaltar o papel do Aéreo Clube de Sergipe, que através dos pilotos Walter Baptista e Lourival Bonfim, que fizeram um belo trabalho na ocasião prestando os primeiros socorros às vítimas e inclusive denunciando os fatos acima relatados.
Por outro lado, também vale a pena recordar a atitude de populares, notadamente estudantes do Atheneu que, de forma estúpida e selvagem, promoveram a invasão e depredação da residência do empresário italiano Nicola Mandarino, sem que houvessem mínimos elementos que despertassem alguma suspeita sobre o mesmo sobre alguma participação do mesmo nos torpedeamentos dos navios, a não ser o fato notório de ser italiano e posição social proeminente em Aracaju.
Fatos como estes nos remete necessariamente, a uma análise mais profunda sobre o comportamento humano em geral que, ao nosso sentir, nessas ocasiões, os instintos mais primitivos acabam prevalecendo em detrimento da racionalidade. E nesse particular em geral, os cidadãos pertencentes às classes economicamente frágeis da sociedade quando não esquecidas, são mantidas marginalizadas ao longo do tempo e,nessas ocasiões, – e como sabemos desde os tempos mais remotos assim se manifestam -, põem para fora, geralmente de forma violenta, todos os sentimentos e complexos de inferioridade até então contidos e adormecidos ao longo do tempo, no mais profundo do seu ser, buscam em tais atos de vandalismo a sua auto afirmação!
Vale lembrar ainda que, 12 anos depois, em 1954, coincidentemente num mesmo mês de agosto, novamente uma turma ensandecida, aproveitando o fato da notícia do suicídio do Presidente Getúlio Vargas, percorre as ruas e praças de Aracaju promovendo atos de vandalismo, culminando com o linchamento do cidadão Lydio da Paixão, em plena Praça Fausto Cardoso, acontecimento este que, semelhantemente aos fatos ocorridos em agosto de 1942, ninguém foi identificado e nem punido.
Finalmente se faz necessário também para nós sergipanos de hoje, ao tomarmos conhecimento do relato histórico acima descrito, tenhamos a consciência necessária sobre os mesmos e refletindo sobre estes, busquemos uma melhor compreensão sobre a natureza essencial das suas causas, a fim de que possamos também, em tempos presentes e futuros, contribuir para que tais fatos não se repitam em terras sergipanas.
Críticas e sugestões no e-mail do autor: pfontesnog@gmail.com
Paulo Nogueira Fontes é professor Licenciado em História pela UFS.


