Vânia Azevedo
Os últimos dias que antecederam o pleito de 2022 foram marcados por ameaças e forte tensão, algo que não se viu em nenhum outro momento nesse país – exceto durante o regime militar -impedindo que as pessoas demonstrassem suas prioridades eleitorais sob pena de sofrer agressões físicas ou materiais.
Diferente dos pleitos passados, dessa vez quase não se via demonstrações de eleitores simpatizantes do partido dos trabalhadores – especialmente de Lula – ou qualquer outro partido senão os aliados de Bolsonaro. Não que o eleitorado de Lula não seja bastante expressivo em Sergipe, mas, simplesmente por prudência; por saber que qualquer manifestação contrária ao candidato Bolsonaro era recebida como um insulto ou provocação, insuflando os ânimos de generosa parte do seu eleitorado, notadamente caracterizado pela violência. Fato que se comprova no simples ato de plotar o carro,onde se revela a preferência do outro, o que significava um convite à agressão, custando ao proprietário os dissabores de encontrá-lo riscado ou amassado – correndo o risco de ser submetido a humilhações e afrontas no trânsito.
Pouco se viu de camisas, bandeiras e bonés pelas ruas da cidade que não fosse o controverso uso das cores e símbolos nacionais utilizados equivocadamente com o intuito de dar um parecer confiante e patriótico a uma campanha baseada em Fake News. Uma campanha que deturpa informações, usa de má fé, adentrando às igrejas e ludibriando as pessoas, caracterizando o uso indevido do nome Deus com o fim de justificar um governo marcado por atitudes violentas, mortes suspeitas e mentiras a toda prova.
Espalhando uma falsa ideia de normalidade econômica, Bolsonaro subestima a fome no país – por volta de 33 milhões de pessoas -, enquanto agrava o quadro mantendo congelada desde 2017 a quantia de repasse federal para auxiliar na merenda de escolas municipais e federais. Emesmo quando a inflação verbera, ele jura que o desemprego cai, que a saúde e a educação vão bem,nutrindo dessa maneira o seu discurso de negação da realidade.
Afinal, que tempo é esse que estamos vivendo? Me pergunto e logo respondo: estamos vivendo o tempo em que a violência tem nome e endereço. É o tempo em que a violência deixa de ser latifúndio apenas de bandidos de profissão, para legitimar as agressões gratuitas e favorecer os casos de feminicídio. Tornou-se lugar comum a utilização de armas e seu uso indevido por pessoas que deixaram cair a máscarae dar vida a agressividade que vivia contida por conta de regras sociais e morais necessárias apara uma convivência pacífica. Um tempo marcado pela gestão de um homem violento e indecoroso, que assume o poder e fazemergir de uma parcela dapopulação o que há de mais ignóbil no indivíduo: o desprezo pela pessoa humana.
Como consequência da admiração pelo seu mito de araque, a identificação foi imediata, e banalizar a maldade e o desprezo às minorias passou a ser a marca registrada desses soldados do mal.
Prova disso reside nos poucos minutos em que ele liderou a contagem de votos, o que já foi já foi suficiente para seus desvairados seguidores saírem em disparada pelas ruas da cidade,insultando as pessoas que encontravam usando roupas vermelhas, disparando toda arrogância que caracteriza aqueles que veem no mais desrespeitado presidente que o Brasil já teve, o seu famigerado mito.
O segundo turno virá e a postura comedida da maioria do eleitorado que esteve contra Bolsonaro no primeiro turno deverá permanecer. É imperativo que as pessoas não se desgastem medindo forças com quem só precisa de uma razão para fazer transbordar a agressividade que o move Toda a energia deverá estar voltada para o ato de confirmar o seu voto no dia 30 de outubro, reafirmando o seu compromisso de exterminar o mal através do voto, conforme as urnas já sinalizaram nesse primeiro turno. Estamos no caminho certo.
Vânia Azevedo é professora e escritora.


