ANOTAÇÕES FINAIS SOBRE O PCB E O MAJOR JOÃO TELES

* Afonso Nascimento

Com esse artigo pretendo concluir a série de ensaios biográficos sobre o major João Teles. Muitas questões que não foram tratadas jornalisticamente o serão quando esses artigos forem reunidos em forma de livro. É minha intenção discutir aqui dois pontos. O primeiro é abordar de forma provisória questões sobre o PCB e o meu ponto de partida é o seguinte: o PCB nunca conseguiu ser um partido político de verdade. É mais apropriado chamá-lo de organização política de militantes civis e militares. Inicialmente foi pensada para fazer uma revolução comunista no Brasil e aos poucos abandonou essa ideia. Por conseguinte, no decorrer de sua história, a sua preocupação principal se tornou sobreviver ao longo de sete décadas do século XXI.
O PCB foi uma organização também composta de militantes voluntários e profissionais. Os militantes voluntários, não remunerados porque tinham meios de prover o seu sustento e de suas famílias, eram homens e mulheres que queriam mudar a sociedade e a política no Brasil. Além do seu trabalho voluntário, também comportava a presença de profissionais comunistas da política. Com efeito, como uma organização funcionando na ilegalidade na maior parte de sua história, não dava para pensar dirigentes perseguidos cotidianamente e procurando emprego no mercado ordinário de trabalho. Para existir, o PCB tinha que ter quadros profissionais.
Afora o caso dos dirigentes, existiam profissões profissionais que exigiam exclusividade por parte da organização. Nesse caso, o racional era colocar esses profissionais na folha de pagamentos do PCB e assim eles podiam cuidar ao mesmo tempo do trabalho no PCB e do sustento de suas famílias. Por último, havia o problema de “baixas” de comunistas (mortos, incapacitados para o trabalho, exilados, etc.), que demandavam uma folha de pagamento suplementar para financiar “os pensionistas do PCB”. Quando tragédias aconteciam, as famílias dos militantes não podiam ficar desamparadas. Dizia-se existir um “INPS do PCB”. (Agradeço ao historiador Ivan Alves Filho por conversa esclarecedora a esse respeito.)
Segundo Paulo Cunha, outro historiador especialista em questões do PCB, “na redemocratização soube que havia mais de 200 militantes aposentados, doentes ou familiares na folha de pagamento”.
Falando em termos gerais e superficiais, o PCB sempre esteve ligado à URSS, primeiro país a reivindicar-se comunista e, em tal condição, abrigou, treinou, financiou ações de quadros de partidos comunistas fora e dentro da URSS. Sim, nesse sentido, “o ouro de Moscou” existiu. Com efeito, de algum lugar, e não só de doações, rifas e venda de jornais, alguém tinha que financiar as ações de comunistas antes e durante a Guerra Fria. A quebra do laço com a dita “capital do comunismo” aconteceu com “o grande racha” no começo dos anos 1980 entre os comunistas brasileiros que também levou, coincidentemente, à crise definitiva e ao fim dessa organização política no Brasil.
O PCB foi a grande matriz da esquerda brasileira. Os seus investimentos políticos mais importantes sempre foram junto às classes trabalhadoras (associações, sindicatos, etc.), que deveriam ser o motor da revolução social que reivindicavam. Destaque muito relevante desses investimentos foi aquele dado aos intelectuais (professores, jornalistas, escritores, estudantes, etc.). Embora quase todos tivessem uma concepção instrumental da democracia, percebida como “meio” para um suposto maior salto democrático, o PCB teve um papel importante na luta contra as ditaduras de Vargas e dos militares.
Adentrando agora no segundo bloco de anotações, gostaria de destacar que alguns elementos da política do major João Teles enquanto militante comunista da “velha guarda do PCB” em Sergipe. Não foi um comunista profissional. Tinha muita coragem e, pouco a pouco, se encontrou como militar de esquerda e, enquanto tal, fez a sua diferença na história do comunismo sergipano.
Um militar de esquerda “tardio” – eis aí o major João Teles, ao tornar-se comunista quando foi para a reserva remunerada do Exército. Não chegou a ser um comunista revolucionário porque não fez nenhuma revolução social.
Enquanto homem de esquerda possuía as suas contradições e as suas limitações como tantos outros comunistas de sua geração. Sem querer rotulá-lo pejorativamente, o major João Teles foi um militante leninista, estalinista e prestista. Por que leninista? Explico. Lênin (1870-1924) foi um homem de ação e um brilhante intelectual, coisa rara de ser encontrada em uma única pessoa. Fez uma revolução política. O major tinha admiração pelo seu trabalho, tendo sido seu contemporâneo – embora em campos separados. O major deve ter lido o seu “O Estado e a revolução”, “As três fontes constitutivas do marxismo” e, com maior probabilidade, “O que fazer?”). A concepção de assalto ao poder, por quadros leninistas, não era desconhecida do major.
Por que o major foi um estalinista? O militar sergipano apoiou o totalitarismo soviético. Ignorou os crimes cometidos por Stálin na União Soviética, bem como as atrocidades do banditismo político do governador Leandro Maciel (1897-1984), a quem estava politicamente ligado em Sergipe. Desde que aderiu ao PCB em 1947, sempre esteve do lado da URSS. Caso quisesse mudar, não tinha informações para fazê-lo. Quando supostamente o comunista sergipano Carlos Garcia (irmão de Robério Garcia, dirigente partidário) rompeu, através de carta em que pediu desligamento do PCB, com o estalinismo dentro do PCB sergipano, o major ficou do lado da direção do PCB estadual.
Luís Carlos Prestes tinha no major João Teles um seu seguidor. Com efeito, tinha verdadeira admiração pela figura ímpar do “cavaleiro da esperança” (1898-1990). Por causa de seu jeito de agir, parecia ser mais militar do que político. Grosso modo, era dogmático, intransigente, autoritário. Da mesma forma que certos brasileiros fizeram história por seu servilismo aos Estados Unidos durante a Guerra Fria, Prestes também exagerou na dose ao afirmar, certa vez, que ele ficaria ao lado da URSS caso o Brasil entrasse em uma guerra contra a extinta União Soviética. Tornou-se um “russo-brasileiro”. Fazia sentido. Depois que se afastou do Exército brasileiro e tornou comunista profissional, foi a URSS que quase sempre pagou as suas contas durante a maior parte de sua vida, no Brasil e no estrangeiro. A sua identificação com a URSS era total. Ele “contribuiu” para a crise que levou à dissolução do PCB em 1992.
O major João Teles tinha as suas ambições por poder, mas suas ações políticas carregavam algo de idealista. Querem um exemplo? É inegável que, depois de sua violenta prisão de 1952, poderia ter desistido de conquistar o poder como membro do PCB e ir cuidar de sua vida e de seus negócios. Por que um homem escolheria continuar fazendo o tipo de política que poderia implicar prisões, sofrer torturas, “desaparecer”, etc.?
O major João Teles nunca foi um revolucionário de esquerda. Poderia ter sido em 1935, se a insurreição tivesse tido sucesso e se ele tivesse optado por acompanhar os revoltosos do Rio Grande do Norte. Como a linha política do PCB depois de 1935 nunca mais foi a revolução social dos trabalhadores, se transformando numa organização reformista, o major também seguiu o mesmo caminho. Em outras palavras, o desejo de fazer uma revolução nunca fez de ninguém um revolucionário. Essa categoria de homem político só aparece depois do fato, ex post facto. Ninguém é revolucionário antes de ter feito uma revolução, tenha sido ela burguesa ou não.
Estes são, a meu ver, alguns dos pontos mais relevantes para a continuidade de estudos e pesquisas sobre o major João Teles no período que teve explícita militância comunista. Em primeiro lugar, ressalto aqui sua luta pela inserção das classes subalternas na política eleitoral e a sua transformação numa força política. Antes do PCB, e mais tarde com o PTB, a classe trabalhadora não era tratada como o centro da política de esquerda – até porque isso não existia.
Em seguida, menciono a sua luta para manter em funcionamento os quadros do PCB, com frequência desestruturado pela repressão militar estadual e federal. Forneceu infraestrutura e financiamento para o PCB enquanto setor civil e militar. A sua luta pela transformação social e política do Brasil no período que antecedeu ao golpe militar de 1964 é o terceiro ponto que quero destacar. Essa é a sua fase mais rica e importante como militante comunista. Por último, a sua luta contra o regime militar. Participou ativamente da resistência à ditadura castrense de muitas formas, sendo uma delas o seu apoio aos candidatos comunistas no MDB.
O objetivo desses ensaios biográficos sobre o major João Teles foi retirá-lo da invisibilidade histórica, mesmo sendo o principal nome do comunismo em Sergipe e um dos nomes mais importantes do Brasil. A atualidade de sua obra política consiste em mostrar que os militares do Exército nem sempre fizeram política sempre a serviço dos grupos dominantes. Não precisa ser um Exército de esquerda, mas um defensor incondicional da democracia. O major teve uma vida política de comunista que precisa ser estudada pelos historiadores sergipanos e brasileiros.

* Afonso Nascimento, professor de Direito da UFS (Aposentado)

O objetivo desses ensaios biográficos sobre o major João Teles foi retirá-lo da invisibilidade histórica, mesmo sendo o principal nome do comunismo em Sergipe e um dos nomes mais importantes do Brasil

 

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