* Afonso Nascimento
A ideia deste pequeno texto surgiu quando tomei conhecimento que Joseluci Ramos Prudente e Sérgio Silva Fontes tinham lançado livro (FONTES, Sérgio Silva e Joseluci Ramos Prudente (Orgs.). Participação sergipana no Colégio Militar de Salvador (1957-1962). Aracaju: J. Andrade, 2023.) sobre sergipanos que estudaram no Colégio Militar de Salvador (CMS), no período de 1957 a 1962. Esse colégio do Exército da Bahia é uma das catorze escolas militares do Exército no Brasil, isto é, Colégio Militar de Belém, Colégio Militar de Belo Horizonte, Colégio Militar de Brasília, Colégio Militar de Campo Grande, Colégio Militar de Curitiba, Colégio Militar de Fortaleza, Colégio Militar de Juiz de Fora, Colégio Militar de Manaus, Colégio Militar de Porto Alegre, Colégio Militar de Recife, Colégio Militar do Rio de Janeiro, Colégio Militar de Santa Maria e Colégio Militar de São Paulo.
Pesquisando sobre elites jurídicas e políticas sergipanas, ficara sabendo que muitas delas tinham tido passagem por duas escolas de elite de Salvador. Refiro-me ao Colégio Antônio Vieira e ao Colégio Maristas. Logo após esses estudos, jovens das classes altas sergipanas continuavam estudando na capital baiana onde faziam seus cursos superiores em Direito, Medicina, Engenharia, etc. Era um tempo – fins dos anos 50 e começos dos anos 60 – em que cursos superiores começavam a ser criados por aqui. Mesmo com a emergência das primeiras faculdades em Sergipe, as famílias mais esnobes mantiveram seus filhos estudando em Salvador ou em outras cidades.
A essas duas escolas de elite tive de agregar outra mais: o Colégio Militar de Salvador (CMS). Faço alguns comentários sobre esse colégio. Não tenho informação para dizer o quão elitista era essa escola militar para as elites baianas e sergipanas. Era uma escola do Exército, instituição de ensino com professores que eram funcionários públicos federais, militares e alguns civis. Nada posso dizer sobre a qualidade do ensino ofertado, porém imagino que era de bom nível.
Essa escola militar foi fundada em 1957 pelo presidente Juscelino Kubitschek (Decreto nº 40.843, de 28 de janeiro de 1957). Ela funcionou, primeiro, em Pitangueiras por pouco tempo e, depois, na Pituba. E ainda hoje está em funcionamento. Na sua inauguração estiveram presentes o general Lott, então ministro da Guerra, além de autoridades estaduais baianas. O CMS foi fechado em 1989. Mais tarde, em 1993, retomou as suas atividades até hoje. Era gratuita e os seus alunos, depois de fazerem os antigos cursos ginasial e o científico, não eram obrigados a seguir a carreira militar. Muitos se tornaram elites civis e outros, militares.
Não havia reservas de vagas para sergipanos no período mencionado no livro, de 1957 a 1962. Não sei porque os organizadores só escolheram a fatia de cinco anos da instituição baiana. De 1957 a 1962, durante seis anos, anualmente entraram três, quatro, quatorze, dezesseis, cinco e três, totalizando quarenta e seis ingressantes entre baianos e sergipanos.
Exceções postas de lado, as famílias que mandavam os seus filhos (com idade entre nove e onze anos) estudar nessa escola em Salvador tinham que ter recursos para sustentá-los, pagando despesas como pensionatos em residências de civis e de militares da reserva, material escolar etc. Outro indicador de sua alta origem (mas não posso dizer se era generalizado), era o fato de alguns desses alunos já terem passagem pela escola de elite sergipana que era o Colégio do Salvador em Aracaju. Essa escola católica aracajuana não era para qualquer pessoa. Acrescento aqui, rapidamente, que essa meninada recebia aqui uma dura formação católica e em seguida era submetida a uma rígida educação militar.
Do Colégio do Salvador em Aracaju ao Colégio Militar em Salvador, esses meninos deixavam as casas de seus pais, tomavam o trem “Estrela do Norte” da Leste Brasileiro e iam obter uma educação militar que nada tinha de liberal, tomada por valores como ordem, disciplina, hierarquia, etc. Na sua maioria, eram nascidos em Aracaju. Não há informação no livro sobre como as famílias visitavam o colégio, contratavam os pensionatos de militares da reserva para seus filhos, etc.
Não foram poucos alunos egressos do CMS que fizeram curso preparatório para ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) no Rio de Janeiro e seguiram carreira militar. Outros fizeram o curso da AMAN e depois mudaram para profissões civis. Um teve problema de saúde na AMAN e ingressou em profissão jurídica, entre outros exemplos.
Entre os sergipanos que frequentaram os bancos do CMS, podem ser citadas elites civis como Sérgio Fontes Silva, Eliziário Silveira Sobral, entre outras mais. O número de elites militares é bem mais expressivo, a saber, Joseluci Ramos Prudente, José Elito Carvalho Siqueira, Érico Álvares de Aragão, Valmore Freire de Oliveira Filho, Fernando Ruy Ramos Santos, Ivan Pavlichenko Filho, Augusto César Lobão Moreira, etc. Destaco alguns membros civis e militares desse “clube” conversador.
Eliziário Silveira Sobral é oriundo da oligarquia rural de Itaporanga e estudou no Colégio do Salvador em Aracaju. Depois do CMS, frequentou a AMAN, no Rio de Janeiro, mas decidiu que queria continuar como seu pai, Manuel Conde Sobral, a pertencer às elites civis sergipanas. Assim, foi deputado estadual e secretário de Estado em várias pastas de diversos governadores.
Sérgio Fontes Silva também estudou no Colégio do Salvador. O livro não informa sobre a sua origem social. Fez a opção por estudar Economia na Universidade Federal de Sergipe e especialização no IPEA. Foi várias vezes secretário de Estado em vários governos.
Mencionado acima, o coronel Joseluci Ramos Prudente estava entre as elites militares. Não chegou a ser general por causa de problema de saúde. Filho de comerciante, ocupou vários postos militares em diferentes cidades brasileiras. Durante o governo de Antônio Carlos Valadares, Prudente estava trabalhando no Exército em Recife, quando foi sondado para ser comandante da Polícia Militar de Sergipe. Disse “não” duas vezes, porém, ao receber telefonema de general lotado em Brasília, aceitou o desafio e voltou para Aracaju. Depois, foi tornado secretário de Segurança Pública de Sergipe.
Quatro sergipanos chegaram a general do Exército: Elito, Érico, Maciel e Armindo. José Elito Carvalho Siqueira parece ter sido o sergipano com passagem pelo CMS a ocupar cargos mais altos enquanto militar, isto é, comandante da 6.ª Região Militar; comandante Militar do Sul; e ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (2011-2015), durante o governo da presidente Dilma Rousseff.
Não queria concluir este texto sem destacar a presença de Ivan Pavlichenko, general anticomunista da antiga União Soviética, vivendo em Aracaju, cujo filho do mesmo nome foi estudar no CMS no ano de sua inauguração (1957). Refugiado político no Brasil, ele fez a divulgação dessa escola militar em escolas primárias sergipanas em busca de candidatos a frequentar os seus bancos do CMS. De acordo com o livro que estou a tratar, o general era “um grande incentivador e divulgador para que sergipanos participassem dos Exames de Admissão, que lhes qualificariam para ingressar naquela instituição de ensino militar. (…) Foi incansável, fazendo palestras nas escolas primárias, mostrando a qualidade do ensino na formação intelectual, dos conceitos de ética, hierarquia, disciplina, organização…” (pp.34-35).
A presença desse “general cossaco” em Sergipe deve merecer um texto à parte. Não se sabe como ele veio parar em Aracaju, aqui casar com sergipana e ter um filho aprovado no Colégio Militar de Salvador. Que atividade profissional exerceu? Etnicamente, era ucraniano. Fazia parte do grupo de militares que fugiram da ditadura de José Stalin sobre a União Soviética. Era o chefe do grupo no Brasil. Foi acusado de fazer propaganda pró-comunista no Brasil, o que nunca foi verdade. Teve passagens por várias cidades brasileiras como Rio de Janeiro, Viçosa, etc. Porém, isso é outra história.
* Afonso Nascimento, professor emérito da UFS


