Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
.
Não há, em Aracaju, duas atrizes com o talento cômico de Paula Auday. Apresente-lhe uma plateia de adolescentes atormentados por hormônios e smartphones, ela os terá na palma da mão.
O espetáculo ‘Procura-se uma palhaça só’, na programação Vila da Páscoa, é a maior prova. No palco do Teatro Atheneu, anos atrás, a palhaça Mingau Mole não precisou dizer uma única palavra para prender a atenção da horda tiktoker aboletada nas poltronas da casa.
O roteiro do espetáculo concebido e estrelado por Paula Auday usa e abusa dos recursos próprios do universo circense. Mímica, acrobacia, paródia, todo o repertorio de gestos, adereços, caras e bocas, típicos da palhaçaria, pontuam a montagem livremente inspirada em ‘A hora da estrela’, de Clarice Lispector. Em lugar da melancolia pronunciada em forma de excelente literatura, contudo, sobra disposição para o absurdo e a gaitada.
Aqui, a solidão intransponível dos românticos não passa de uma tênue linha condutora. Há uma situação posta, delimitada pela relação de uma secretária sonhadora com um programa de rádio. Ela ri, ela chora e, sobretudo, ela faz graça.
À frente da companhia Cigari há bons 15 anos, Paula Auday dispensou a cor esmaecida de uma lona surrada, há tempos. Um tamborete, uma praça, um terreno baldio, mais a atenção sincera de uma plateia disposta à alegria derramada, eis o circo.

