Rian Santos
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As Terças do Arrocha, o palco erguido para o fio do canço Nathanzinho Lima em pleno País do Forró, obrigam-me a pedir socorro aos livros.
Por sorte, o jornalista e pesquisador Tiago Paulino cometeu um destes, após comer a poeira das estradas para tentar entender os conflitos gerados pela exploração comercial do forró.
Embora seu autor não seja um forrozeiro de chapéu e gibão, a tese de Paulino restaura a seriedade subtraída a um debate o mais necessário, interditado por interesses de muitos milhões em moeda corrente.
Fala-se aqui, melhor dizer de uma vez por todas, da degeneração de Cultura em produto, com o controverso patrocínio do dinheiro público. ‘Palco de Disputas e Disputas pelo Palco no País do Forró’, lançado a um bom par de anos, se atém aos grandes eventos realizados sob o pretexto dos festejos juninos em Sergipe. E, sendo assim, tem o potencial de futucar as feridas de muita gente graúda, como só o bom jornalismo faz.
Em busca dos depoimentos da brava gente forrozeira, Thiago se mostrou um profissional diligente, atento à função social tantas vezes desprezada no exercício do jornalismo.
O danado não tem rabo preso. O próprio tema eleito para a sua pesquisa de doutorado, base da publicação, atesta a sua cepa, a matéria da pena empenhada em tão delicada tarefa. Só quem não compactua com os podres poderes nos serões da província conhece o preço cobrado por um mínimo de independência num meio tão caduco como a arena Serigy.
Segundo Paulino, o livro pega o fio da meada, atento aos laços de uma história já muito antiga, para fazer uma pergunta que não quer calar.
“Este é um livro sobre o forró. Entendemos o forró aqui como dança, ritmos (xote, baião, arrasta-pé) e estilos (forró eletrônico, forró pé de serra, universitário). Uma bela colcha de retalhos costurada por muitas mãos ao longo do tempo. Mãos de compositores, músicos, produtores, empresários, comunicadores. A musicalidade do forró também ajudou a atribuir sentidos para o nordeste e enriquecer o patrimônio cultural brasileiro. Mas até que ponto o forró tradicional, com suas histórias, consegue espaço para subir aos palcos financiados pelo dinheiro público e se mostrar ao povo nas festas juninas?”.
O leitor habitual talvez estranhe o tom complacente destas linhas, que chegam ao cúmulo de opinar, esbanjando adjetivos, sobre um livro de cunho científico. Mas é assim mesmo. A bem da verdade, a ousadia de Paulino me torna menos solitário e lava a alma de qualquer um com coragem para tomar partido nesta peleja sem fim.


