Rian Santos
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Às vésperas do Dia das Crianças, procuro nas vitrines, entre badulaques, algo para presentear os meus filhos. Sigo o rito sugerido pela efeméride. Mas tal comércio não me apetece.
O melhor de mim repousa sobre um acervo empoeirado, legado imenso de poetas mortos e cantoras alcoólatras, usualmente destinado ao apetite das traças. Sou um homem velho. Guardo e também espalho versos, compassos, mais nada.
Desde quando me tornei pai uma segunda vez, bagunço a discoteca no fundo da cachola a fim de encontrar uma canção de ninar para Lorena. Inácio, um marmanjo com dois anos e meio de praia, ainda hoje o faço pegar no sono cantarolando Noite Severina, de Pedro Luis e Lula Queiroga. A minha menina, ao menos por enquanto, prefere as ruínas na voz áspera de Tom Waits.
O mundo é grande. O mundo não cessa de girar, eu sei. Temo, no entanto, pela experiência sensível reservada às minhas crias. Saudosista, talvez, lembro como foi difícil, para mim, adquirir discos e livros. Mas cresci ouvindo os Beatles e os Rolling Stones. Os meninos da idade de meus filhos, ouço dizer, estão fadados aos hits do Tik Tok.
Redes (anti) sociais, uberização do trabalho, ascensão da extrema direita… Só um louco é capaz de trazer alguém à vida em contexto tão odiento. Eu, por exemplo, não tenho um pingo de juízo. Considero as intempéries do tempo e sussurro Hold On (aguente firme, em tradução livre) no ouvido de minha filha.
Sim, os meus filhos também conhecem o repertório dos conjuntos Mundo Bita e Palavra Cantada, entre outros projetos de méritos variados voltados para a faixa etária da primeira infância, naturalmente. Outro dia, no entanto, eu ouvia Led Zeppelin no carro, quando a minha esposa chamou atenção para um momento inesquecível. Enquanto eu xingava os barbeiros nas vias lentas de Aracaju, meus filhos batiam cabeça como um headbanger, no banco de trás.


