Se eu quiser falar com Deus

Os palcos, trios elétricos e fanáticos nas ruas mandam um recado: os cristãos são muitos (Jales Valquer)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Nos livros de história, marchas e paradas militares correspondem sempre à ostentação de força, uma demonstração de poderio material orientada para a intimidação de eventuais inimigos. Mas a lógica beligerante das nações imperialistas ainda não é página virada, apesar das lágrimas e do sangue derramado das fotografias em preto e branco.
A Marcha para Jesus, com data marcada para percorrer os caminhos sensíveis da capital sergipana, reunindo multidões de crentes, por exemplo, se impõe sobretudo pelo volume. O triunfo da vontade, para lembrar Leni Riefenstahl, se dá exclusivamente por vantagem numérica, com bombas e gritos.
Deus não habita em templos de pedra e cal, mas as igrejas prosperam como nunca. Beneficiadas pelo status de instituição filantrópica, isentas de contribuição fiscal, as organizações religiosas atuam desde sempre como força política e econômica, com a ambição declarada de influência em todas as esferas da vida pública.
Os palcos, trios elétricos e fanáticos ocupando as ruas mandam um recado mundano, em alto e bom som: os cristãos são muitos.
Não é de se espantar, portanto, a presença de lideranças partidárias em espaços de devoção, essencialmente estranhos à performance política. Pedem bênçãos, em pose contrita, mas recebem os votos dos crentes de bom grado.
Curioso é notar que, mesmo na bíblia, considerada um livro sagrado, há diversas passagens recomendando a oração a portas fechadas, longe do olhar público, como na canção de Gilberto Gil que empresta o título a este artigo. Nada de orar em pé nas sinagogas, às esquinas, sob os olhos e a opinião dos homens. A mão esquerda não tem nada com os gestos da mão direita, Mateus adverte. E, no entanto, marcham os crentes.
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