Rian Santos
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Compartilho com Preta, companheira de todas as horas, um gosto obsoleto, talvez, pelo bom da vida. Sentados à sombra, dia após dia, enchemos a boca com generosos bocados de acarajé e cerveja.
Começamos pela Mica, no bairro Jabotiana. Não paramos mais. O nosso propósito declarado é provar todos os acarajés comercializados na cidade.
Não podemos sentir o cheiro do azeite de dendê, um convite insinuado no ar, indiferente às conveniências do conforto. Muitas vezes, o bolinho de feijão é frito ali mesmo, na calçada. Muitas vezes, a clientela se satisfaz ali mesmo, à beira do fogo, de pé.
Temos um ranking pessoal, orientado por critérios diversos. A Mica segue imbatível. Mas já desbancamos estabelecimentos conceituados, como o famoso Acarajé da Jaira, na margem mais bem frequentada da Avenida Adélia Franco. Simples questão de gosto. A boa reputação da baiana não convenceu o nosso palato.
Leio sobre a ialorixá Sônia Oliveira, fundadora do YeYê Bistrô, premiada justamente por seus dotes culinários. Se a minha experiência merecer algum crédito, as suas panelas realmente justificam o olho gordo do leitor.
De fato, a culinária ancestral da Bahia merecia mais do que estas linhas mal traçadas, um breve artigo de jornal. A simples menção a uma massa de fritura leve e bem areada, mais a seda do caruru e o vatapá, uma iguaria sagrada, coroada com a maresia guardada em carne salgada de camarão, é capaz de me botar a lamber os beiços.


