Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Outro dia, mirei o espelho e dei de cara com o mais sofisticado dos homens. Enquanto a cidade inteira rebolava no compasso de um arrocha, peguei o caminho inverso, fui à Catedral Metropolitana de Aracaju a fim de conferir um concerto da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Programa e evento finíssimos!
Isso de manter um conjunto sinfônico profissional com agenda regular, público cativo e diálogo constante com a cena nacional, como faz o Governo de Sergipe, ainda está em vias de ser devidamente aproveitado pela inteligência do lugar.
Estou ciente de que não sou o único filho da terra com a manha de enfileirar rock, jazz, macumbagens e latinidades lado a lado, junto às sonatas de Bach e Beethoven.
Ainda assim, não é raro, para mim, ir aos concertos da ORSSE e voltar pra casa sem avistar um único rosto conhecido, sentindo-me o mais solitário dos falsos eruditos, completamente sozinho.
Sim, convém evitar o drama, deixar os tímpanos com a munheca do percussionista James Bertisch e a eventual grandiloquência dos grandes compositores.
Mas os esforços realizados no sentido de convencer mais e mais gente do proveito de dispor alguns tostões furados em favor da maravilha impalpável produzida por madeiras, cordas, metais, refiro-me a tempo e também a dinheiro, precisam reverberar com mais força, anunciados aos quatro ventos.
Verdade seja dita: o Teatro Tobias Barreto, casa da ORSSE, nunca teve as portas abertas para qualquer um. As igrejas que abrigam a série Sons da Catedral, uma das poucas incursões da Orquestra em ambientes efetivamente populares, são espaços próprios para os convertidos.
Escolas, praças, parques, esquinas, semáforos, precisam entrar urgentemente no roteiro da música de concerto, uma iniciativa civilizatória.
Uma ode ao movimento, um impulso feliz, “sempre mais à frente”, como cantaram Sá, Rodrix & Guarabira. O coração pelo mundo, vagabundo, rolando no pó da estrada.


