* Adriano Ferreira Barros
O projeto denominado CNH Brasil escancara uma prática recorrente e perigosa da política brasileira: a transformação de políticas públicas sensíveis em peças de propaganda pessoal, desconectadas da ciência, da educação e da responsabilidade com a vida humana. Não se trata de modernização, inclusão ou justiça social. Trata-se de populismo explícito, construído sobre a fragilização deliberada dos mecanismos de proteção à sociedade.
A encenação protagonizada pelo ministro Renan Filho ao comparecer ao DETRAN da Paraíba para obter a “primeira CNH do projeto” não possui qualquer densidade institucional. Foi um gesto performático, típico de quem governa por imagem e disputa narrativa, e não por evidência técnica. O episódio se insere em um contexto de intrigas políticas no Congresso, tensões com lideranças como Hugo Motta e uma tentativa clara de esvaziar o protagonismo legislativo de Davi Alcolumbre, autor de iniciativas que, ao contrário do projeto ministerial, reconhecem a centralidade da formação qualificada e da avaliação técnica no trânsito.
O núcleo do CNH Brasil é a negação da ciência. Ao atacar a educação formal de condutores, relativizar a importância das avaliações médicas e psicológicas e tratar a saúde do motorista como entrave burocrático, o projeto adere frontalmente ao negacionismo científico. Essa lógica já foi testada e fracassou. Durante o governo Bolsonaro, a ampliação do prazo de validade da CNH foi implementada sem estudos técnicos consistentes, ignorando alertas de especialistas. O resultado foi previsível: aumento da circulação de condutores com doenças progressivas não diagnosticadas, elevação do risco viário e crescimento dos sinistros. O Estado produziu o problema, e agora finge ignorá-lo.
A CNH Brasil reapresenta o mesmo erro, com nova embalagem. Promete “baratear” hoje o que custará caro amanhã em mortes evitáveis, sequelas permanentes, famílias desestruturadas e pressão sobre o SUS, a previdência e o sistema de assistência social. É uma política que socializa o prejuízo e privatiza o ganho político.
Mais grave ainda é a postura do Partido dos Trabalhadores. O PT, que construiu sua história defendendo políticas públicas baseadas em ciência, educação e proteção social, opta agora pela conivência silenciosa com uma proposta que reproduz o mesmo desprezo técnico do bolsonarismo. A incoerência é gritante. Ao endossar ou tolerar esse projeto, o partido abdica de seu discurso histórico e legitima uma política que transforma a segurança viária em moeda eleitoral para 2026.
Não há ingenuidade nesse processo. O CNH Brasil não é um erro técnico, é uma escolha política consciente. Escolhe-se iludir a população com soluções fáceis, enquanto se desmonta silenciosamente uma política pública que levou décadas para ser construída. Escolhe-se agradar o eleitor hoje, mesmo sabendo que o preço será pago em sangue amanhã.
Educação no trânsito não é luxo. Avaliação médica e psicológica não é capricho corporativo. Ciência não é obstáculo. São instrumentos mínimos de civilização. Criminalizar o conhecimento, deslegitimar a técnica e desprezar a saúde do condutor é abrir mão do dever básico do Estado: proteger a vida.
O CNH Brasil não amplia direitos. Amplia riscos. Não democratiza o acesso. Democratiza a insegurança. E a história recente mostra que políticas públicas fundadas no negacionismo e no marketing não produzem inclusão, produzem tragédia.
* Adriano Ferreira Barros é psicólogo e especialista em Psicologia do Trânsito, tendo presidido por dois mandatos o Conselho Regional de Psicologia da 19ª Região (CRP-19). Atua na interface entre ciência, políticas públicas e segurança viária, com ênfase na defesa da avaliação psicológica.


