Fincar os dois pés no bom senso para evitar mais um ano nas quatro patas

* Michel de Oliveira

Os produtores do comercial de Natal das Havaianas provavelmente nem imaginaram pisar em terreno tão escorregadio. Tudo começou com a propaganda de fim de ano em que a atriz Fernanda Torres, com a elegância de quem acaba de conquistar o mundo, sugere que não deveríamos iniciar 2026 apenas com o “pé direito”, mas com os dois pés: na porta, no asfalto, na vida, na jaca, onde quiser. O que era uma metáfora simples e bem-humorada acabou se transformando, por um passe de mágica da ignorância, em senha de guerra ideológica.
Em poucos segundos de vídeo, uma mensagem típica de fim de ano, leve, quase banal, foi arrancada do contexto afetivo e jogada no ventilador da polarização política brasileira. O resultado foi previsível: indignação performática, boicotes virtuais, análises forçadas e uma disputa para ver quem grita mais alto diante de algo que, em condições normais de inteligência, não renderia mais do que um sorriso distraído.
É fascinante, de um jeito assustador, observar a pobreza de interpretação que domina o nosso tempo. Onde o roteirista viu poesia, o tribunal da internet enxergou um complô. O termo “pé direito”, expressão milenar de sorte, foi sequestrado por quem não consegue mais ver uma cor ou uma direção sem sacar um manual de militância do bolso.
Esse episódio diz muito sobre o ambiente que se desenha para a eleição presidencial de 2026. O sinal é claro: a ignorância não apenas circula, como se apresenta com orgulho, como já foi tragicamente constatado nos últimos pleitos. O ordinário passa a ser tratado como extraordinário, e o irrelevante ganha status de urgência nacional. Em vez de enfrentar questões estruturais, discute-se se uma atriz teria embutido mensagens subliminares em um comercial de sandálias.
O mais revelador é como, mais uma vez, algo irrelevante mobilizou todo o ecossistema da opinião pública. A imprensa dedicou tempo e espaço para explicar o óbvio. Analistas de mercado precisaram comentar a queda das ações das Havaianas por causa do boicote digital.
A reação política conseguiu ser tão imatura quanto a acusação inicial. O episódio virou um jogo de espelhos, em que cada lado compete para ver quem exagera mais. Diante do boicote histérico de cortar as correias da sandália, vimos uma resposta da esquerda igualmente infantilizada. Surgiram as “Havaianas da resistência”, compras por “vingança” e textos inflamados que tratam a escolha de um chinelo como um ato de guerrilha antifascista.
Transformar o consumo de uma sandália de borracha em um marcador de virtude política é o ápice do nosso vazio semântico e simbólico. Enquanto a imprensa dedica horas para debater a “crise do pé direito”, a política concreta, aquela que se decide em gabinetes e impacta diretamente o prato de comida, segue o curso praticamente imune à gritaria virtual.
As redes sociais provaram, mais uma vez, a eficácia em transformar o nada em pauta nacional. A massa conectada tem poder de mobilização fenomenal para a besteira. No entanto, essa mesma energia se dissipa quando o assunto exige mais de dois neurônios ou um parágrafo de leitura. Criam uma militância da besteira, ruidosa e emocionalmente engajada, porém incapaz de produzir qualquer efeito relevante e positivo na vida real.
Para este novo ano que se aproxima, o comercial talvez tenha razão. É preciso, sim, entrar em 2026 fincando os dois pés no bom senso, para evitar tropeçar com o peso na burrice e começar mais um ano com quatro patas.

* Michel de Oliveira, jornalista e doutor em Comunicação e Informação

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