Rian Santos
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Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar”, lamenta o sambista, atento aos próprios pruridos, antes de uma ressalva redentora: isso, até o Carnaval chegar.
Longe de mim, submeter uma canção composta em outros Carnavais à sensibilidade de agora. Águas passadas não movem moinho. Convém perceber, no entanto, como as questões de gênero evoluem lentamente, a passos de tartaruga, em respeito à liberdade e a autonomia do mulherio sobre o próprio corpo. Hoje, compreende-se: mesmo no Carnaval, a ofegante epidemia, não é não. E ponto final.
Leio em matéria da Agência Brasil: metade – 50% – das mulheres já foi vítima de assédio sexual durante o Carnaval e 73% delas têm receio de passar por essa situação pela primeira vez ou novamente.
De acordo com levantamento do Instituto Locomotiva, a proporção de assédio e receio é ainda mais alta entre mulheres negras, chegando, respectivamente, a 52% e 75%.
A pesquisa entrevistou 1.507 homens e mulheres com 18 anos de idade ou mais, entre 18 e 22 de janeiro, ano passado. Mas, certamente, segue atual.
A pesquisa indica, ainda, outro dado importante: seis em cada dez mulheres – 60% – percebem o Carnaval de hoje tão arriscado quanto os do passado, em relação ao assédio sexual. De novo, há diferença de percepção entre mulheres brancas – 55% – e mulheres negras – 65%.
Os carnavais passam, vêm e vão, animados por sucessos descartáveis e sambas imortais. A mulher, enaltecida em verso e prosa, no entanto, ressoa em nota dissonante, como alguém ainda em vias de conquistar plenamente o direito de ir e vir, senhora de si.

