Rian Santos
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Ateu confesso, eu também sou brasileiro, como o leitor. Assim, em toda a liturgia do cristianismo, tiro bom proveito do vinho – uma metáfora fermentada em barril de carvalho – e dos feriados religiosos distribuídos ao longo do calendário.
Semana Santa, Páscoa, Corpus Christi, Natal, as celebrações católicas são amigas da boa mesa, evocam sempre a Santa Ceia, a partilha de pão e vinho entre Jesus Cristo e os seus apóstolos, às vésperas da crucificação. Leio Matheus e me comovo com a imagem. Há beleza no mito.
“E, quando comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu, o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lhe o, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados”.
Há beleza no mito, sim. Mas a ideia totalitária de um Deus solitário, primeiro e único, não convém à vastidão do mundo, povoado por tanta gente diferente. O próprio cosmos, o balé das estrelas, sugerem arranjo diverso. O Deus cristão é um só, apenas mais um. Sorvo o sangue do novo testamento, certo de que há outros por aí.


