Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O registro de um show realizado por Gal Costa e o violonista Luiz Meira no Teatro Castro Alves, em Salvador, será lançado na forma de álbum póstumo, próximo dia 17. Não deve acrescentar muito ao legado da artista. Mas também não deixa de ser uma boa oportunidade de ouvir a sua voz.
A morte de Gal Costa, uma circunstância da vida, não exime ninguém da dívida com a obra realizada ao longo de 77 anos bem vividos, sempre no alto, na frente, na proa, sempre na vanguarda da sensibilidade brazuca.
Gal cantou Caetano e Gil, Roberto Carlos, mais Jards Macalé, Torquato Neto, Djavan. Duelou com a guitarra de Lanny Gordon. Esnobou a devoção apaixonada de Tom Zé. Gal deu moral a Tim Bernades, generosa como uma monarca de coração grande, uma rainha, soberana. Atenta e forte, até o fim.
Há cantoras e cantoras. Nunca haverá outra Gal. Ela, umbigo à mostra, linda, na flor da idade, anunciou as promessas de uma revolução que nunca se cumpriu plenamente nas alturas mais quente dos trópicos com um movimento ligeiro da cintura fina. Fa-Tal! Evocou o assum preto de Luiz Gonzaga, no gogó. Botou a mãos nas cadeiras, faceira, lépida, índia, doce e bárbara, hippie, feliz.
Gal foi um sopro. A sua força infla, ainda agora, as velas arriadas das embarcações mais tristes, inertes, sem disposição para a alegria selvagem de um destino verdadeiramente amoroso, amplo de verdade. Antes de escafeder-se de uma vez por todas, regeu um coral formado por milhares de brasileiros de pele morena a fim de mandar Bolsonaro tomar no cu.
Alguém como Gal não morre de verdade. A cantora vive nos sulcos da memória pouca, nas ranhuras dos LP’s. Em beats. Em bytes. Telúrica. Astral. Ouço álbuns gravados há dezenas de anos, registros certos, retos, diretos como um desaforo. Ainda agora, escuto Gal.

