Rian Santos
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O amigo Crec Leão, sempre citado aqui em função de ousadias filiadas às artes visuais, cometeu uns garranchos em forma de boa literatura e me pediu um prefácio. Lisonjeado, tentei fazer jus à linguagem do autor e ao espírito da obra em questão em alguns poucos parágrafos. A editora não gostou, esperava algo mais formal.
‘A perda’, o tal romance de Crec, foi lançado em encorpado formato físico, esses dias. Não li o prefácio encomendado pela editora, não leio prefácios. Mas ao ver imagens o amigo todo sorridente, feliz da vida, em animada sessão de autógrafos, fiquei também feliz. E publico aqui as minhas impressões, um tanto deslocadas, talvez. Honestas demais.
A perda – Há algo de heroico no adjetivo “maldito”. Talvez por isso, os malquistos e marginais despertem em mim uma simpatia irrevogável. Nas prateleiras de minha biblioteca particular, nos embates mais dolorosos, à mesa dos bares, numa fila, prefiro a companhia de gente sem papas na língua.
São estes, os mal educados, os rancorosos e mal amados, os únicos com temperamento para mandar tudo para o diabo, sem prejuízo de sua má reputação.
Eu poderia me dar ao trabalho de enfileirar um verdadeiro séquito de escritores malditos, filhos legítimos e bastardos da aldeia Serigy, desde Fernando Moraes até o incontornável Charles Bukowisk. Não o farei. Antes disso, brindo o leitor com a prosa afiada do amigo Crec Leão.
O sujeito tem um pezinho no rock’n roll. Foi à frente de uma banda, abusando da garganta e de figurinos constrangedores, que o artista radicado na Desvairada deu vazão ao primeiro impulso criativo. Muito barulho pra nada. Restaram as fotos, que ele exibe na primeira oportunidade, orgulhoso, e a lembrança das farras. O gosto pela estrada, o romantismo de uma vida sem as amarras convencionais, no entanto, jamais o abandonou. E transborda em todos os trabalhos nos quais Crec mete os dedos, coloca as mãos.
Seria supérfluo estender-me aqui em considerações beletristas, aderindo aos formalismos dos doutos. O barato aqui é outro. Mais proveitoso é atestar a delícia da leitura. Não sei como Crec vai lançar suas mal traçadas. Sei que elas ainda me aquecem, assim como o fogo destilado permanece no palato, mesmo após descer pela garganta, como o berro rouco de Tom Waits.


