40 anos numa caixa

Livros, discos, bibelôs de procedência duvidosa. (Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O cronista está de mudança, mudou de CEP, com mala e cuia, a fim de bem acomodar bichos e filhos em morada mais adequada. Inácio e Lorena, aliás, já deram necessário aval à casa nova.
Isso de encaixotar o acervo acumulado ao longo da vida dá pano pra mangas. Livros, discos, bibelôs de procedência duvidosa, agendas ultrapassadas por acontecimentos de toda sorte, felizes e infelizes, anotações esquecidas em cadernos velhos, entalham a fisionomia e moldam o espírito de um sujeito. O gosto revela tanto de um homem quanto o hábito mais arraigado, ancestral.
 Não sei de estantes mais confusas. Conservo o primeiro berro dos Baggios e o último suspiro criativo de Paulo Lobo com o mesmo carinho.
 Transportar a biblioteca de uma casa para outra, então, assemelha-se a promover uma acareação. Frente a frente, lombada com lombada, Paulo Francis troca farpas com Eduardo Galeano. Capitu, a primeira mulher de verdade em toda a literatura brasileira, pede satisfações a Diogo Mainard, para quem a personagem de Machado traiu e ponto final. Sartre, Camus e Beauvoir deitam na mesma cama, sem fazer caso de protestos sentimentais. E por aí vai.
 Nada sei do mundo multipolar perseguido por Lula com o desassombro sem recato de um líder emergente. Jamais, no entanto, acomodei-me de modo irrefletido à margem da linguagem, nos extremos do pensamento, como um prisioneiro humilhado por grilhões.
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