A mais nova novela da Globo

* Luciano Correia

Apontar o dedo para o STF e dizer que quele poder apodreceu, é não olhar para o próprio rabo, sobretudo se levarmos em conta os donos dos dedos. O Jornal Nacional de quarta, 02/08, foi mais um espetáculo oferecido por essa especialidade da Rede Globo: a capacidade de montar narrativas e divulgá-las de forma bombástica às vésperas de eleições. Quem não te conhece, hein, Rede Globo? Da criminosa edição do debate entre Lula e Collor em 1989, do recente PowerPoint da Globo News, tão tosco quanto o da dupla Moro/Dalagnol?
Lula faz um governo liberal, de centro direita, fazendo o que pode para agradar a canalha da qual faz parte a Globo. Porque é o único jeito de governar, na medida do que ainda se considera governar. Mas eles acham pouco. Preferem um nanico moral, representante de um clã com ligações com os segmentos e práticas mais nefastos que se tem notícia neste país onde o crime praticamente está naturalizado. Flávio Bolsonaro é das rachadinhas, das milícias e dos dinheiros roubados de Vorcaro. Mas nada disso constrange a família Marinho. Ela própria nunca apreciou a virtude.
O que está podre, junto com o STF de Moraes e Mendonça, talvez seja todo o aparato do judiciário, com as honrosas e cada vez mais raras exceções. Começando pelo ministro André Mendonça, abraçado com o capo do Banco Master com a mesma quantia sugerida no contrato do escritório da mulher de Alexandre de Moraes. Seriam os mesmos 130 milhões. Seriam. Eis aí algumas questões que uma boa investigação poderia decifrar. Mas a ação de Mendonça é seletiva. Ele mesmo está enrolado em vários outros “negócios”, como um curso de formação para funcionários da Prefeitura de São Paulo, na gestão amiga de Ricardo Nunes. Sabe aqueles cursos que oferecem generalidades abstratas, um lero-lero mais próximo da autoajuda do que alguma capacitação técnica?
Que se investigue os indícios gravíssimos associados a Moraes, mas que, igualmente, se abra o sigilo da investigação do filme Dark Horse, onde o banqueiro bandido fez aportes de mais de 100 milhões, uma operação usou o tal filme como desculpa para dar dinheiro ao clã dos Bolsonaro. Que se investigue os vazamentos seletivos emanados do processo conduzido por André Mendonça, que, coincidentemente, escolheu a dedo seus colaboradores da Polícia Federal para conduzir da forma mais parcial um trabalho que só compromete ainda mais o Supremo Tribunal Federal. É possível até que a trama urdida como um roteiro de ficção não dê em nada, afinal, como está claro, as provadas ligações de Mendonça com Don Vorcaro são um abraço de afogado no ministro terrivelmente hipócrita.
Depois da eleição, vai funcionar o Brasil do acordão, esse esporte nacional que historicamente nos transformou no país da pizza. Mas os estragos terão sido feitos. Esse, na verdade, era o único propósito do terrível Mendonça. De caçador de marajás, justiceiros, lava-jatos e PowerPoints, já estamos tão fartos quanto cansados. Depois de outubro, é pizza, putas e porres, tudo nas mesmas proporções geométricas: terrivelmente evangélicos, terrivelmente pornográficos, terrivelmente desonestos, terrivelmente políticos.

* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS

Compartilhe esta notícia