Um novo mapa-múndi – Parte 1

Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

O mapa-múndi que aprendemos a observar desde a infância está passando por uma importante transformação. Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que incentiva a utilização de representações cartográficas capazes de retratar de maneira mais proporcional as dimensões reais das massas continentais, com destaque para a projeção Equal Earth – Terra Igual. A decisão recebeu 164 votos favoráveis, seis abstenções e apenas um voto contrário.

Mais do que uma mudança estética, a decisão representa uma oportunidade de refletir sobre como o conhecimento geográfico evoluiu e como a forma de representar a Terra influencia nossa percepção do mundo.

Cabe registrar que a Terra é uma esfera e o mapa é um plano, portanto, existe um problema fundamental na cartografia, não é possível transformar perfeitamente uma superfície esférica em uma superfície plana. Ao produzir um mapa-múndi, o cartógrafo necessariamente precisa escolher o que será preservado e o que será deformado: áreas, formas, distâncias e direções.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – explica que diferentes projeções são utilizadas justamente porque cada uma procura solucionar determinados problemas cartográficos. Mercator, por exemplo, é uma projeção conforme, enquanto outras projeções procuram preservar as áreas ou minimizar simultaneamente diferentes tipos de distorção.

Essa questão aparentemente técnica tem consequências muito mais amplas. O mapa não é apenas uma ferramenta para localizar países. Ele também organiza mentalmente nossa compreensão sobre tamanho, distância, centralidade, importância econômica e posição relativa dos territórios.

A história da cartografia é, em grande medida, a história da própria evolução do conhecimento humano sobre a Terra. Um dos grandes nomes dessa trajetória foi Cláudio Ptolomeu, geógrafo, astrônomo e matemático da Antiguidade. Sua obra Geographia sistematizou informações sobre localidades conhecidas e desenvolveu métodos para representar a superfície terrestre utilizando coordenadas de latitude e longitude. Séculos depois, seus conhecimentos seriam fundamentais para o renascimento da cartografia europeia.

Outro personagem decisivo foi Gerardus Mercator, cartógrafo flamengo do século XVI. Em 1569, Mercator apresentou a projeção que levaria seu nome. Seu grande mérito foi produzir uma representação particularmente útil à navegação, fazendo com que as linhas de rumo constantes pudessem ser representadas como linhas retas.

Entretanto, essa vantagem operacional produziu uma consequência visual importante, pois quanto mais próximo dos pólos, maior é a distorção das áreas.

Assim, a Groenlândia pode parecer visualmente comparável à África, embora a África tenha aproximadamente 14 vezes a área da Groenlândia. O problema não estava necessariamente em Mercator ter produzido um mapa errado. Seu mapa respondia a uma finalidade específica. O problema surge quando uma determinada projeção é utilizada como se fosse uma representação neutra e universal do tamanho real dos territórios.

No século XX, outro nome tornou-se particularmente importante nesse debate, trata-se de Arno Peters. A projeção de Peters procurou preservar a proporcionalidade das áreas continentais. Isso provocou uma mudança significativa na percepção visual do mundo, especialmente na África, América do Sul e outras regiões do chamado Sul Global que passaram a ocupar no mapa uma dimensão visual mais compatível com suas áreas reais. Peters também colocou em discussão uma questão que ultrapassava a matemática da cartografia, a representação do mundo pode carregar uma determinada visão de mundo.

Durante séculos, mapas produzidos e utilizados no contexto europeu tiveram enorme influência sobre a percepção global dos territórios. Por isso, a discussão sobre projeções cartográficas também se relaciona à história, à política, à educação e às relações de poder.

Isso não significa afirmar que Mercator tenha sido criado deliberadamente para diminuir países do Sul. Essa interpretação simplificaria excessivamente a história da cartografia. A projeção foi desenvolvida principalmente para atender às necessidades da navegação. O ponto fundamental é outro, pois uma ferramenta criada para uma finalidade específica acabou se tornando, para muitas gerações, a imagem mental predominante do tamanho do planeta.

Outro importante cartógrafo foi Arthur H. Robinson, que desenvolveu, em 1961, a projeção Robinson. Sua proposta procurou encontrar um compromisso entre diferentes tipos de distorção. Em vez de preservar rigorosamente áreas ou formas, a projeção buscava minimizar visualmente as deformações gerais. Por essa característica, a Robinson tornou-se muito utilizada em mapas-múndi de caráter educacional.

A trajetória de Mercator, Peters e Robinson demonstra que não existe simplesmente o mapa correto. Existem projeções adequadas a diferentes objetivos. E é justamente essa compreensão que torna relevante a nova discussão promovida pela ONU, sendo o Equal Earth uma nova maneira de enxergar o planeta.

A projeção Equal Earth, desenvolvida em 2018 por Tom Patterson, Bojan Šavri? e Bernhard Jenny, procura preservar as proporções das áreas continentais de maneira mais fiel, mantendo uma representação visual relativamente equilibrada das formas.

A grande consequência pedagógica é imediata, pois os territórios que estavam visualmente reduzidos nas representações tradicionais recuperam sua dimensão relativa.

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