Saumíneo Nascimento
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Falar sobre a consolidação da Geografia no estado de Sergipe exige, obrigatoriamente, recuperar a trajetória intelectual e institucional do Professor José Alexandre Felizola Diniz. Como uma das mentes mais brilhantes e dedicadas das ciências humanas e da terra no Nordeste, sua atuação na Universidade Federal de Sergipe (UFS) foi o alicerce fundamental para transformar o estado em um polo de excelência e referência nacional nos estudos espaciais, desde as primeiras turmas da graduação até o amadurecimento das pesquisas de pós-graduação.
A trajetória do Prof. Alexandre Felizola Diniz na UFS confunde-se com a própria história da interiorização e amadurecimento do curso de Geografia. Em uma época em que os estudos regionais ainda careciam de rigor metodológico e ferramentas analíticas robustas, Prof. Alexandre Diniz introduziu na graduação uma visão científica rigorosa. Ele não enxergava o espaço geográfico sergipano apenas como um cenário estático, mas sim como um território dinâmico, forjado por contradições socioeconômicas e transformações agrárias complexas.
Sua presença nas salas de aula de Aracaju e na formação das primeiras gerações de geógrafos moldou uma identidade profissional combativa e analítica. Sob sua tutela, os estudantes aprenderam a indissociabilidade entre a teoria acadêmica e a realidade empírica do campo e da cidade de Sergipe.
O salto qualitativo da escola geográfica de Sergipe ocorreu com a estruturação da pós-graduação, campo onde o Prof. Alexandre Felizola Diniz desempenhou papel central de liderança e articulação. Ele foi uma das forças motrizes por trás do fortalecimento do Núcleo de Pós-Graduação em Geografia (NPGEO) da UFS, ajudando a erguer as bases que permitiram a criação e consolidação dos cursos de Mestrado e Doutorado.
Graças à sua visão estratégica e ao seu prestígio acadêmico, o NPGEO rompeu o isolamento regional, atraindo pesquisadores de todo o país e estabelecendo convênios científicos interinstitucionais. Sob o seu incentivo, a pós-graduação em Sergipe deixou de ser uma receptora de teorias do Sudeste para se transformar em uma produtora ativa de reflexões críticas sobre o espaço nordestino.
A espinha dorsal do pensamento de Alexandre Felizola Diniz está ancorada na Geografia Humana e Agrária, dialogando profundamente com as correntes críticas e a geografia crítica/marxista, sem perder o rigor analítico da geografia regional. Seus referenciais teóricos sempre priorizaram a organização espacial do Nordeste; a análise das assimetrias regionais; as secas não apenas como fenômenos climáticos, mas como determinantes políticos e socioeconômicos; a estrutura fundiária e o campesinato, contribuindo para o estudo detalhado das relações de produção no campo sergipano; além das disputas territoriais e o papel da modernização dolorosa da agricultura. O Prof. Alexandre Diniz fez a articulação entre Geografia e Economia, através da compreensão do espaço como reflexo e motor dos fluxos de capital e da divisão territorial do trabalho.
A principal obra do Prof. Alexandre Diniz, o livro Geografia da Agricultura, publicado pela editora DIFEL em 1984 é considerado um clássico e um divisor de águas nos estudos rurais brasileiros. A obra possui uma abordagem inovadora, diferente da linha puramente descritiva ou estritamente político-ideológica da época, o livro destacou-se pela introdução de métodos quantitativos e estatísticos aplicados à análise do espaço agrário. O livro aborda a tipologia da agricultura, a organização espacial das atividades camponesas e empresariais, a produtividade, a modernização do campo e o uso de modelos matemáticos (como revisões e críticas a teorias clássicas de localização, a exemplo de Von Thünen) para explicar como a agricultura se distribui geograficamente no território.
Como docente e pesquisador, o Prof. José Alexandre Felizola Diniz contribuiu para a estruturação de importantes departamentos de geografia no país, a exemplo da Universidade de Brasília (UNB), foi um dos professores pioneiros e iniciadores do Departamento de Geografia da UNB na década de 1960/1970. Retornou posteriormente à sua terra natal, onde consolidou sua carreira como Professor Adjunto da Universidade Federal de Sergipe (UFS), além de exercer cargos administrativos de destaque, como Assessor do Reitor e Diretor do Museu de Arqueologia de Xingó (MAX/UFS).
Seus orientandos no Mestrado e Doutorado da UFS herdaram não apenas o rigor metodológico, mas também a sensibilidade para aplicar a ciência geográfica na resolução de problemas reais de planejamento urbano, desenvolvimento agrário e políticas públicas. Entre os nomes influenciados por sua linhagem de pensamento, destacam-se figuras que transitaram da análise territorial para a gestão socioeconômica do estado, aplicando as lições de planejamento e análise espacial na formulação de estratégias para o desenvolvimento regional de Sergipe.
Hoje, a Geografia da UFS figura entre os programas mais respeitados e consolidados do Brasil, ostentando conceitos de excelência junto à CAPES. Essa robustez é o fruto direto da semente plantada pelo Prof. José Alexandre Felizola Diniz. Assim, o seu legado é a fundação de uma autêntica Escola de Geografia de Sergipe, uma tradição acadêmica caracterizada pelo compromisso social, pela densidade teórica e pelo amor profundo à investigação do território.

