Apresentarei adiante alguns pontos apresentados por Kristalina Georgieva que atualmente ocupa o cargo de Diretora-Geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), posição que exerce desde 1º de outubro de 2019. Cabe registrar que antes de ingressar no FMI, a Dra. Georgieva foi CEO do Banco Mundial de janeiro de 2017 a setembro de 2019, período em que também atuou como Presidente Interina do Grupo Banco Mundial por três meses. Nascida em Sófia, Bulgária, Dra. Georgieva possui doutorado em Ciências Econômicas e mestrado em Economia Política e Sociologia pela Universidade de Economia Nacional e Mundial de Sófia, onde foi professora associada entre 1977 e 1993.
A Diretora Geral do FMI esclarece que mais de três meses após o início da guerra no Oriente Médio, a economia global parece estar resistindo. Os preços das commodities, a inflação e suas expectativas, bem como as condições financeiras, foram impactadas, mas ainda não de forma a sinalizar uma desaceleração global. E observa-se um forte impulso econômico nas maiores economias do mundo, os Estados Unidos e a China.
Mas um panorama global de resiliência esconde disparidades significativas. Mesmo entre as economias avançadas, alguns países e comunidades foram mais afetados. E na África, os impactos negativos são mais evidentes. Enquanto isso, com o prolongamento do fechamento do Estreito de Ormuz e a infraestrutura no Oriente Médio danificada pelos conflitos, a incerteza e os riscos permanecem elevados.
Para a Diretora Geral do FMI alguns fatores impulsionaram a resiliência global até o momento, pois no início do conflito, a preocupação imediata era o impacto nos preços da energia e os efeitos subsequentes na inflação. E esses efeitos foram consideráveis. Os preços do petróleo estão 30% mais altos do que os níveis pré-guerra. No entanto, esse valor é menor do que o observado no início do conflito, apesar do prolongado fechamento do estreito.
Alguns países, como a China, conseguiram, por enquanto, amortecer a disrupção explorando suas reservas de petróleo. Isso também ajudou a aliviar a pressão sobre a demanda em regiões da Ásia, que foram duramente atingidas. O aumento da produção e da utilização de refinarias fora do Golfo, embora insuficiente para compensar o choque, também conteve a alta dos preços do petróleo. Além disso, medidas para reduzir a demanda ou limitar o repasse dos preços mitigaram o impacto até o momento. Mas, também nesse caso, há limites para o tempo que os países conseguirão arcar com os custos orçamentários mais elevados e as maiores necessidades de financiamento externo.
Em muitas economias, o aumento dos preços do petróleo está, no entanto, contribuindo para uma aceleração da inflação geral. Isso é preocupante, mas não explica tudo. Também é importante considerar se as pessoas e as empresas esperam uma erosão mais persistente do seu poder de compra. E essas expectativas de médio prazo geralmente permanecem bem ancoradas. Isso é um sinal encorajador de confiança no compromisso dos bancos centrais com a estabilidade de preços.
Segundo a Dra. Georgieva, os mercados financeiros também demonstraram resiliência. Os rendimentos dos títulos do governo subiram significativamente desde o início da guerra, mas os ativos de risco valorizaram-se devido aos fortes resultados financeiros, e observamos poucos indícios de uma fuga generalizada para ativos seguros. Em termos históricos, as condições financeiras permanecem favoráveis.
Ela também entende que a tecnologia é outro ponto positivo. Os fortes investimentos em tecnologia, particularmente em inteligência artificial e centros de dados têm sido uma força motriz nos países onde o ritmo de crescimento econômico se mantém. Os Estados Unidos estão se beneficiando desse ciclo tecnológico global, assim como as economias asiáticas que têm apresentado maiores exportações de tecnologia. A maioria dos países, no entanto, ainda não sentiu o impacto da tecnologia na produtividade e no crescimento, o que gera preocupações sobre uma maior divergência econômica.
Para a autora da abordagem, a combinação de resiliência econômica e avanços tecnológicos ajudou a amortecer o impacto do choque no fornecimento de energia sobre o crescimento global, e houve pontos positivos em algumas regiões. No entanto, existem países mais afetados, dependendo em grande parte da geografia, do grau de dependência energética e da margem de manobra política disponível.
Em relação aos impactos da guerra, a proximidade é crucial. Os países exportadores de petróleo do Golfo Pérsico, diretamente afetados pela guerra, enfrentam revisões acentuadas para baixo em suas projeções de crescimento este ano, com cinco dos oito países registrando contrações expressivas.
Para a Europa, que depende fortemente da importação de petróleo e gás, os preços mais altos da energia estão afetando o crescimento e pressionando a inflação para cima, com o BCE tendo recentemente aumentado as taxas de juros.
As economias de mercado emergentes na Ásia também estão sofrendo o impacto mais severo, devido à sua dependência relativamente maior de petróleo e gás. Elas enfrentam preços da gasolina no varejo que aumentaram 40% desde o início da guerra, enquanto a alta dos rendimentos dos títulos do governo, a depreciação cambial e a pressão de fuga de capitais amplificaram os custos do choque. No entanto, são os países que combinam uma forte dependência das importações de energia com um espaço político limitado que são particularmente afetados.
A minha expectativa pessoal é de que a duração da guerra seja abreviada, visando evitarmos uma maior intensidade no fornecimento de energia para o mundo e recompondo uma perspectiva mais positiva de crescimento da economia mundial.


