O que esperar do futuro da Economia – Parte 1

Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

O Boletim Focus e os indicadores de mercado constituem uma das principais referências para compreender as expectativas dos agentes econômicos sobre o desempenho da economia brasileira. Mais do que simples projeções, esses indicadores influenciam decisões de investimento, concessão de crédito, política monetária, planejamento empresarial e até o orçamento das famílias.
Os pontos que irei abordar adiante foram aprofundados a partir de dados do Informativo Semanal de Economia Bancária da Febraban, que mostra um cenário de desaceleração gradual da inflação, crescimento econômico moderado, juros ainda elevados e expansão consistente do crédito, compondo um quadro típico de uma economia em processo de estabilização após um ciclo de forte aperto monetário.

O Focus projeta IPCA de 5,12% em 2026, inferior às expectativas de um mês antes, mas ainda distante da meta perseguida pelo Banco Central. Para 2027, a expectativa permanece em 4,22%, indicando que o mercado acredita em uma convergência lenta da inflação.
No cotidiano da população, essa desaceleração significa menor pressão sobre alimentos e combustíveis, preservação gradual do poder de compra dos salários, melhora das condições para redução futura dos juros e maior previsibilidade para empresas e consumidores.

Essa dinâmica encontra forte respaldo na teoria monetarista de Milton Friedman, segundo a qual o controle da inflação depende essencialmente da condução da política monetária. Ao manter juros elevados durante período prolongado, o Banco Central reduz o ritmo da demanda agregada, contribuindo para conter a alta dos preços.

Ao mesmo tempo, a leitura também dialoga com o regime de metas de inflação desenvolvido por economistas como John Taylor, cuja regra de Taylor estabelece que a taxa básica de juros deve reagir aos desvios da inflação em relação à meta e ao comportamento da atividade econômica.

O mercado mantém expectativa de crescimento do PIB em 1,99% em 2026 e apenas 1,60% em 2027, indicando uma economia que continua crescendo, porém em ritmo inferior ao observado nos anos anteriores.

O próprio relatório observa sinais de perda de tração da atividade econômica, apesar do consumo das famílias permanecer relativamente resiliente e do mercado de trabalho ainda aquecido.
Na prática, isso significa crescimento mais lento do emprego, expansão menor da renda, redução gradual do ritmo dos investimentos privados e menor arrecadação tributária no médio prazo.

Essa interpretação remete à teoria dos ciclos econômicos de Joseph Schumpeter, segundo a qual períodos de expansão são naturalmente sucedidos por fases de acomodação até que novas ondas de inovação retomem o crescimento.

Também dialoga com Robert Solow, cuja teoria do crescimento demonstra que, no longo prazo, aumentos sustentáveis do PIB dependem principalmente dos ganhos de produtividade, educação e inovação tecnológica.

Embora a inflação esteja desacelerando, o mercado continua projetando Selic de 14% ao final de 2026, reduzindo apenas para 12% em 2027.

No cotidiano, juros elevados significam financiamentos imobiliários mais caros, crédito empresarial mais oneroso, aumento das prestações de veículos, maior atratividade das aplicações em renda fixa e menor consumo financiado. Entretanto, o relatório mostra que, mesmo com juros elevados, a carteira de crédito continua crescendo próxima de 10% ao ano, impulsionada principalmente pelos programas públicos e pelas linhas direcionadas.

Esse comportamento aproxima-se das ideias de Hyman Minsky, que argumentava que sistemas financeiros modernos continuam expandindo crédito mesmo em ambientes de juros elevados, desde que existam mecanismos institucionais capazes de reduzir o risco, como garantias públicas e programas governamentais.

O mercado de trabalho permanece resiliente, o consenso projeta desemprego de 5,4% e criação de aproximadamente 115 mil empregos formais em junho. Apesar da redução da taxa de desemprego, o relatório alerta para sinais de acomodação da renda e menor ritmo na geração de empregos.

Para a população, isso representa maior estabilidade no emprego, crescimento salarial mais moderado e menor pressão inflacionária proveniente do mercado de trabalho.
A relação entre desemprego e inflação é explicada pela famosa Curva de Phillips, desenvolvida por A. W. Phillips, que demonstra que mercados de trabalho muito aquecidos tendem a pressionar salários e inflação, exigindo atuação mais firme da política monetária.

Um dos aspectos mais positivos do relatório é a continuidade da expansão do crédito. A expectativa é de crescimento anual da carteira total de aproximadamente 9,8%, com maior dinamismo nas operações destinadas às empresas e nas linhas habitacionais para famílias. Na prática, isso significa mais recursos para investimento empresarial, expansão do crédito imobiliário, manutenção do consumo das famílias e sustentação do crescimento econômico mesmo em ambiente de juros elevados.

Esse fenômeno pode ser interpretado pela teoria da intermediação financeira de Gurley e Shaw, segundo a qual o sistema bancário exerce papel fundamental na transformação da poupança em investimento produtivo.

No próximo artigo concluirei a abordagem do futuro da economia diante do cenário que estamos apresentando.

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