A hora do poema

Um anti computador sentimental (Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Recebo um poema inédito, via zap. O remetente, jornalista conhecido de todos, poeta reconhecido pelos próprios pares, certamente esperava alguma espécie de apreciação. Aquela, no entanto, não era ainda a hora do poema.
O amigo ficou sem resposta, até agora. Naquele momento, quando o poema apareceu no ecrã do telefone celular, um sentimento esticado, sem mais nem menos, na palma de minha mão, eu tomava as providências para um dia na praia. Fraldas e protetor solar para as crianças, gelo e cerveja para a companheira, tanque cheio, pneus calibrados, a própria vida reclamava a minha atenção.
Só mais tarde lembrei dos versos adormecidos, sem fagulha de leitura. Voltei à mensagem. E a evocação apaixonada do autor, um baiano com décadas bem vividas de Aracaju, fez arder de novo o sol em minha pele, o marulho e o azul farto de um dia inteiro a dois passos da imensidão.
Sim, há uma hora certa para provar o poema, o instante inesperado em que a verdade aflora com a evidência incontornável de uma sensação. A leitura linear de um livro de poesia ignora a coincidência, a oportunidade, quando inteligência e intuição se fundem, ao sabor da palavra. Por isso folheio os volumes do gênero displicentemente, ao acaso. De vez em quando, sou tomado de paixão.
Tudo tem o seu tempo determinado, há tempo para todo propósito sob o céu. É preciso ler os poemas sem pressa, portanto, fazer pausas, passar um café, enrolar um fino com o pássaro fugitivo da melodia, vapor e fumaça, cantando nos ouvidos. Offline. Out of time. Em modo avião.
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