Rian Santos
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Tenho larga experiência como pedestre. Estagiário deste Jornal do Dia, jovem e pé rapado, aluguei uma quitinete no trecho mais feio da Rua Propriá, à sombra da Catedral, sob o pretexto de morar a poucos passos do trabalho. Em verdade, no entanto, gastei a sola dos sapatos em caminho diverso, altas horas da noite, enquanto as minhas primeiras crônicas ganhavam dignidade tipográfica, impressas em letra de imprensa.
Andei, andei… Hoje, vinte e tantos anos depois, volto a bater perna, alheio ao tráfego. O carro me deixou na mão. Assim, por força das circunstâncias, caminho pelas ruas da Atalaia como um hippie de meia idade, sem ligar para o sinal vermelho, sem as carícias do motor, a contragosto na contramão.
Sim, evoco Belchior e Raul Seixas, nesta ordem. Mas não tenho mais idade para bancar o “flâneur”. Não sob o sol de Aracaju.
Lembro, incrédulo, estarrecido com a secura da avenida: Uma vez eleita, Emília Corrêa prometeu mudar a capital sergipana em jardim vistoso. Como primeiro ato de sua gestão, aliás, a prefeita plantou 30 mudas de árvores no Parque da Sementeira. Eventualmente, o gesto simbólico é replicado. E, aparentemente, o trabalho para por aí.
Naquela ocasião, argumentei que trinta mudas não mudam nada, com o perdão do trocadilho. Agora, avanço uma quadra, outra. Alcanço a padaria mais perto de minha casa. Estou coberto de razão. Empapado de suor.


