Rian Santos
riansantos@jornalodiase.com.br
Anceloti nos deve uma seleção novinha em folha. A mim, boleiro errático, torcedor de ocasião. E também a minha filha.
Lorena vive a sua primeira Copa do Mundo. Na estreia do Brasil, cobriu-se de verde e amarelo, exortou “Pra cima!”, com a inflexão melada de açúcar das crianças na primeira infância. Minha menina, toda a pátria de chuteiras, arrumou-se para uma festa adiada, ainda sem data para vingar.
Eu estava conformado com uma vitória magra sobre o Marrocos. O vexame de um empate, após um primeiro tempo de brasileiros atônitos, no entanto, saiu barato. O golaço de Vini Jr não redime a seleção, não consola os torcedores, não recompensa a alegria sem motivo de Lorinha. Os acertos ocasionais da seleção nos jogos subsequentes, também não.
Felizmente, o futebol pouco tem de razão. Há apostas, análises, previsões. “Pra cima!”, grita a minha filha, achando graça do espanto provocado por suas palavras. Eu viro o copo, com o ego diluído em corpo coletivo de torcida. Agora o hexa vem!
A utopia da bola – Sei nada a respeito de futebol. Mas, também por dever de ofício, sou um homem bem informado. Os fracassos mais recentes da seleção, desde sempre dependente do talento individual nascido no seio da brava gente, virou manchete e suscita comparações entre o elenco de ontem e hoje. Neste particular, qualquer um percebe, a decepção é evidente. Não se faz mais craque como antigamente.
O amigo Djenal, leão de chácara n’A Casa do Mangue, é vascaíno apaixonado por uma pelota. E, no rastro de um entre tantos fiascos canarinhos, anos atrás, publicou breve e bela digressão sobre o talento inquestionável de Pelé:
“Não fui do tempo de Pelé e obviamente não terei ninguém pra admirar depois dele, na bola. A mídia, claro, dando um fora, vai insistir em vender caro os atuais jogadores da seleção, que não valem um Tostão. A solução é botar os moleques sem empresário pra jogar. Tantos Pelés pelos Brasis, a sobrar! Que dó! Trazer a utopia, pra bola. Mas ninguém topa. Então, “sembola”. Deixa pra lá!”.
Oportunista, pego a trilha aberta por Djenal. Pelé mereceu o epíteto de Rei. E foi citado por Caetano Veloso, em função de uma catarse amorosa, proferida em pleno gramado: Beatle retinto, Pelé disse “love, love, love”.
Vou poupar os leitores de exegeses sem fundamento. O homem foi coroado, conquistou o status de personagem incontornável da Cultura Pop mundial. Foi maior do que Maradona, o encrenqueiro com tatuagem de Guevara no braço? Eu sinceramente não sei. Mas será sempre um ícone. E merece a nossa saudade, como mais ninguém.


