Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Antes era fácil. Uma
palavra se agitava
na turba dos pensamentos remoídos e tudo silenciava. Contas vencidas voltavam para o fundo da gaveta; As pessoas adormeciam na fila repentinamente esvaecida. Concentrado naquela música estranha, piruetas de um vocábulo ansioso pulando no trapézio atônito da imaginação, eu esquecia do vizinho, retrato animado de tudo o que me provoca repugnância. O quarteirão inteiro sumia.
Em mais de quarenta anos, meu vizinho não construiu nada. Nenhum gesto de rebeldia justifica a sua existência. Herdeiro de um estacionamento plantado aos pés de minha janela, o velho gordo, grave e asseado que levanta cedo e junta as mãos em preces sem devoção, passa os dias alisando o tecido fino de suas camisas, recebendo as oferendas que a cidade joga a seus pés. A ele, parasita de um pedaço de chão fecundado com o sangue e o suor roubado de negros escravos, são oferecidas todas as possibilidades do mundo. A mim, um fodido metido a esfregar nojeiras no nariz alheio, um Bukowski sem leitores adolescentes, dois dedos de café amargo e passar bem!
Eu deveria procurar rimas, cantar a bravura dos poderosos, lamber o saco, o rabo e o que mais pudesse babar nessa gente. Eu deveria me dedicar a fazer versos. Sonetos, redondilhas, decassílabos heróicos e alexandrinos sustentando maravilhas de concreto, a providência dos viadutos eternizada com muita pompa e bajulação. Eu deveria desfraldar uma bandeira vermelha na porta de casa, engrossar as fileiras de quantos sindicatos. Eu deveria vender lições de vida. Eu deveria ensinar como conviver com um alcoólatra, como ajudar um viciado, como fazer um salário de puta velha durar o mês inteiro. Mas eu não sei como fazer nada disso.
Meu ministério não possui a leveza nem a graça das aventuras apropriadas. Não existe reflexão, não há senso estético nas garrafas que atiro no meio da rua, nas bancas de revistas, por dever de ofício. Um dia me falaram desse veneno inebriante, destituído de propósito, que muitos confundem com a poesia. Fui enganado. Não é doce como a vida, nem oferece pasto à sabedoria.
Rian Santos
Antes era fácil. Uma palavra se agitava na turba dos pensamentos remoídos e tudo silenciava. Contas vencidas voltavam para o fundo da gaveta; As pessoas adormeciam na fila repentinamente esvaecida. Concentrado naquela música estranha, piruetas de um vocábulo ansioso pulando no trapézio atônito da imaginação, eu esquecia do vizinho, retrato animado de tudo o que me provoca repugnância. O quarteirão inteiro sumia.
Em mais de quarenta anos, meu vizinho não construiu nada. Nenhum gesto de rebeldia justifica a sua existência. Herdeiro de um estacionamento plantado aos pés de minha janela, o velho gordo, grave e asseado que levanta cedo e junta as mãos em preces sem devoção, passa os dias alisando o tecido fino de suas camisas, recebendo as oferendas que a cidade joga a seus pés. A ele, parasita de um pedaço de chão fecundado com o sangue e o suor roubado de negros escravos, são oferecidas todas as possibilidades do mundo. A mim, um fodido metido a esfregar nojeiras no nariz alheio, um Bukowski sem leitores adolescentes, dois dedos de café amargo e passar bem!
Eu deveria procurar rimas, cantar a bravura dos poderosos, lamber o saco, o rabo e o que mais pudesse babar nessa gente. Eu deveria me dedicar a fazer versos. Sonetos, redondilhas, decassílabos heróicos e alexandrinos sustentando maravilhas de concreto, a providência dos viadutos eternizada com muita pompa e bajulação. Eu deveria desfraldar uma bandeira vermelha na porta de casa, engrossar as fileiras de quantos sindicatos. Eu deveria vender lições de vida. Eu deveria ensinar como conviver com um alcoólatra, como ajudar um viciado, como fazer um salário de puta velha durar o mês inteiro. Mas eu não sei como fazer nada disso.
Meu ministério não possui a leveza nem a graça das aventuras apropriadas. Não existe reflexão, não há senso estético nas garrafas que atiro no meio da rua, nas bancas de revistas, por dever de ofício. Um dia me falaram desse veneno inebriante, destituído de propósito, que muitos confundem com a poesia. Fui enganado. Não é doce como a vida, nem oferece pasto à sabedoria.