* Gildeci de Oliveira Leite
O que entenderiam nossas mentes ao ouvirem falas vindas de jovens e vistosas mães, negras principalmente, afirmando que um de seus filhos, logo aquele mais velho e galante, é seu marido? Ou ainda termos a declaração entre duas mulheres de que ambas são esposas? Continuando na mesma linha da provável sexualização dos sentidos, qual surpresa e espanto teríamos todos nós ao ouvirmos uma de nossas cunhadas afirmar, publicamente, que somos, também, seus esposos? Excetuando a possibilidade de uma natural relação homoafetiva, até mentes mais libertárias e progressistas encarariam com algum constrangimento – certamente bem disfarçado – as outras possibilidades má interpretadas por nossos conceitos ocidentais e cristianizados.
Para desfazer quaisquer possibilidades de deturpações, sugiro a leitura do livro "Yorubaianidade: oralitura e matriz epistêmica nagô na construção de uma identidade afro-cultural nas Américas" do Prof. Dr. Félix Ayoh´Omidire. A partir da leitura, será descoberta a inexistência de proposições incestuosas e de outros equívocos. A citada obra será lançada no próximo dia 30 de junho, às 19:00 horas no canal da Editora Segundo Selo no YouTube. Entretanto, devo matar a curiosidade dos leitores, pegando emprestadas palavras do autor e professor da ObafemiAwolowoUniversity, Ile-Ife, Nigéria. Para a cultura yorubá, quando uma mãe chama seu filho de "meu esposo", ela declara o amor maternal, que sente por seu filho e ao mesmo tempo o amor dedicado a seu marido e a felicidade por fazer parte, também, da família deste. No mesmo sentido, chamar uma outra mulher de esposa ou um dos cunhados de esposo revela o alto grau de pertencimento à família do outro e o amor fraternal, que une a todos. Como baiano e soteropolitano que sou arrisquei-me – sem as necessárias investigações científicas, mas fica a dica – a pensar que talvez por isso chamemos afetuosamente nossos amores de "minha filha", "meu filho", "painho", "mainha". Quem sabe seria uma forma de dizermos que amamos nossas parceiras e/ou parceiros, assim como amamos ou deveríamos amar nossos pais, nossas mães. Apesar de meu exemplo, contrariamente ao explicado por Omidire, ter sexualidade, coincidem o valor do amor aos pais e às mães.
Devo informar, que esses não são os cernes da densa obra brevemente comentada por mim, contudo são explicações trazidas pelo docente, também, do Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e membro do Grupo de Pesquisas Crítica Literária e Identidade Cultural (CLIC), dentre outros grupos e instituições da Nigéria, do Brasil e da Alemanha. Tais explicações são extremamente necessárias para a continuidade da descolonização de nossos pensamentos e ao entendimento das teses defendidas por Omidire. A obra de 16 capítulos, assim com 16 são os odus, explica, detalhadamente, aspectos importantíssimos da yorubanidade no mundo e sua dimensão no atlântico. Vejamos que falei em yorubanidade e não em yorubaianidade, conceitos complementares, devidamente explicados na obra: aquele refere-se à culturayorubá e este à cultura yorubáressignificada na Bahia e exportada para diversas partes do mundo.
Sempre na linha da compreensão da diversidade e de o quanto nossas yorubanidade e yorubaianidade são inclusivas, Omidire descarta possibilidades de nagocentrismos e de preconceitos como a utilização ideológica do termo ágrafo para referir-se a culturas como a yorubana. Em constante diálogo com diversos pesquisadores,traz-nos a oralitura e sua necessária interação entre oralidade e escrita, descontruindo a obrigatoriedade de compreensão única de "escrita" a partir do olhar eurocentrado. Os capítulos destinados ao estudo da literatura tradicional yorubana revelam a intensa rede textual inscrita no OponIfá – tabuleiro onde os sacerdotes de Ifá consultam o oráculo – e no pensar dos intelectuais adivinhos com diversos livros memorizados, escritos no OponIfá, lidos somente por olhos devidamente preparados.
Todas as indispensáveis explicações/revelações proporcionadas pelo intelectual filho de Oxum desaguam no desnudar a "Baianidade nagô ou a matriz de uma identidade cultural africana nas Américas". Trazendo à luz produções de artistas como Gerônimo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Carlinhos Brown, Jorge Amado, Mestre Didi, Carybé e intelectuais tais como Ordep Serra, Milton Moura,Yêda Pessoa de Castro, Goli Guerreiro, Antônio Risério, Marco Aurélio Luz, Ildásio Tavares, Vivaldo da Costa Lima, Muniz Sodré, Pierre Verger, Júlio Braga, dentre outros, Félix Omidire comprova a existência da baianidade nagô e sua preponderância, tal a constante presença das baianas do acarajé em diversas partes do Brasil e até no mundo. Com olhar arguto, percebeu o aspecto odara da Bahia e soube como ninguém problematizar a questão, abordando, também, a potência criativa e de resistência de Mestre Didi Axipá, do Ilê Ayiê, Filhos de Gandhy, Pai Burokô, Araketu de diversos blocos afro-carnavalescos e de representações em forma de monumentos na cidade, que é do Salvador e abriga os orixás no Dique do Tororó, por exemplo.
Como bem anuncia nosso pesquisador, há representações da yorubaianidade, entretanto, não sem sofrerem investidas racistas, tais como as deturpações planejadas e os malsucedidos "acarajés de Jesus" ou pipocas evangélicas com o intuito de desqualificar as oferendas ao orixáOmolu. Algo observado por nosso prestigiado filho de Oxum, é que empenhos no total apagamento das representações da baiana do acarajé e de seu tabuleiro, foram substituídos por uma tentativa de ressignificação, que não eliminaria a existência material do acarajé e/ou da pipoca, mas de seus sentidos verdadeiros. O acarajé e a pipoca ou deburu resistiram, resistem! A yorubaianidade é devidamente explicada na obra do Prof. Dr. Félix Ayoh´Omidire, mostrando nossas oralituras afro-culturais nas Américas, passando por conceitos binários, utilizados em lógicas de informática, há muito existente no pensamento nagô. Eu já tenho o meu exemplar de "Yorubaianidade: oralitura e matriz epistêmica nagô na construção de uma identidade afro-cultural nas Américas", sugiro a leitura e as devidas anotações. A obra é densa, didática, com linguagem de fácil entendimento,necessária à compreensão não apensas de africanidades e baianidades, mas da cultura brasileira em geral e da diáspora negra. Aguardo vocês na plateia do lançamento do livro!
* Gildeci de Oliveira Leite, escritor, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, professor do PPGELS (Programa de Pós-Graduação em Ensino, Linguagem e Sociedade) – UNEB


