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ALEVINOS OU GIRINOS?


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Publicado em 21 de março de 2024
Por Jornal Do Dia Se


Para essa crônica interessa falar dos seus patos, que tinham uma “piscina” para banhar-se, diariamente.

Na verdade, era apenas um tanque cimentado que renovava água 1 ou 2 vezes por semana

 

* Thiago Fragata

“Quando a gente conta uma história, liberta-se dela de certa forma”. O aforismo retirei de um romance de Letícia Wierzchowski intitulado O Menino que comeu uma biblioteca, de 2021. A obra conta a vida do menino Jósik que teve na infância uma iniciação no mundo da leitura com seu vô Michael. Por feliz coincidência, também comecei a desbravar os clássicos da literatura com o meu avô Manoel Políbio, in memoriam, e quero retomar um caso nebuloso da infância para desopilar memória. Meu avô criava galinhas, pombos e patos, além de cultivar hortaliças; tudo isso no imenso quintal. O endereço era Rua Felix Pereira, n.1, Cidade Baixa, de São Cristóvão/SE. Para essa crônica interessa falar dos seus patos, que tinham uma “piscina” para banhar-se, diariamente. Na verdade, era apenas um tanque cimentado que renovava água 1 ou 2 vezes por semana.
Naquela época, 1977, eu vivia grudado ao meu irmão Emmanoel, popular Maninho, fazendo explorações naquele espaço. Daí que descobrimos espreitando os muros um pequeno rio, pertinho da linha do trem. No dia seguinte percebemos que nele haviam peixinhos. Desde aquele dia, planejamos fugir para uma pescaria. Seria da mesma forma que, aprendemos na maré, a pesca de manjubas com lâmpada fluorescente e farinha. Fácil, era colocar farinha no fundo da lâmpada pela extremidade aberta então submergir em lugar raso por alguns minutos, depois ir conferir. Manjubas entravam na lâmpada, mas não conseguiam retornar e assim eram capturadas.
No dia da pesca foi uma correria. Trouxemos muitos peixinhos da aventura. A maior fascinação era fazer conchinha com nossas mãos para imaginar que aquela poça d’água era um minúsculo aquário, daí que não cansávamos de embalar os bichinhos. Evidente que a única maneira da gente conviver com eles era botando no tanque dos patos. Eu e Maninho discutimos se os patos não iriam comer nossos peixinhos. Concluímos que eles não conseguiriam mergulhar e afugentar os peixinhos pois nadavam sobre o espelho d’água; a água suja. Quanta ingenuidade…
Na semana seguinte ficamos horas a beira do tanque atentos ao remanso da água, lobrigávamos um sinal dos peixinhos; nada, quero dizer, nenhum movimento de barbatanas. Decidimos então esvaziá-lo. Por quase 1 hora, mãozinhas aparavam água suja. Um, tivesse caído do cano cloaca por onde se esvaía o pútrido líquido seria uma festa, mas não, nada, nada; não havia nada nadando ali.
Finalizada a tarefa, a tristeza abateu-se sobre nós, ainda assim enchemos o tanque dos patos. Pra mim eles eram os culpados, com certeza os nossos amiguinhos jaziam no papo deles, viraram comida! Ficamos inconsoláveis, cada um procurou um canto da casa para remoer aquilo, plantear. Foi justamente nos cantos que encontramos sapinhos e passamos a brincar, tentando superar a perda. Aquilo reanimou a gente, gostávamos muito dos sapinhos, a eles nada se comparava! Vó Dinack galhofou se tratar de praga do Egito invadindo cozinha naquela semana. A porta da cozinha era o principal acesso do quintal…
Incrível como não tinha maturidade para estabelecer conexões entre os fatos: sumiço dos peixinhos e a invasão dos sapinhos. Aulas de ciências chegariam em nossas vidas alguns anos depois, na Escola Municipal São Cristóvão. Hoje apostaria um banho no tanque sujo dos patos que os nossos peixinhos eram girinos, não eram alevinos…

* Thiago Fragata, escritor, historiador e multiartista. Texto do livro inédito CRONICÁRIO DAS MEMÓRIA – SÃO CRISTÓVÃO/SE.E-mail: [email protected]

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