Alô, Vorcaro?

(Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Tenho um amigo de longa data, mais de vinte anos de cervejas e dores compartilhadas, a quem sempre recorro ao fim do mês. Servidor público, ele recebe o pagamento antes de mim.
Jornalista profissional, com dois filhos sob as asas, preciso equilibrar a sede de viver com o orçamento sempre limitado de todo trabalhador brasileiro. Assim, os dias compridos se estendem muito além do meu salário curto. Brinco de roleta-russa com os boletos e bebo. Sem perder a ternura.
Também por isso, espantei-me com o tom das mensagens trocadas entre o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência da República, e o mafioso Daniel Vorcaro. Mais do que o teor da conversa, surpreende, ali, a intimidade evidente de verdadeiros amigos.
Segundo o senador, não há nada a ser explicado. As mensagens trazidas a público pelo site The Intercept (o mesmo da Vaza-Jato, aliás) tratariam exclusivamente de uma peça de propaganda, o filme Dark Horse, um suspeito empreendimento audiovisual de orçamento milionário. O que se ouve, no entanto, passa longe de contratual acerto de contas. Fala-se, inclusive, na “liberdade” de uma cobrança. O arremate não deixa margem para dúvidas: “estamos juntos!”.
Talvez já passe da hora de eu começar a fazer negócios, ao invés de atar laços fraternos duradouros. A mixaria por mim empenhada em birita e tira-gosto, destino certo do adiantamento amealhado junto aos parceiros de copo, não chega nem perto dos milhões “investidos” pelo banco Master no filme de Bolsonaro. Ao contrário de mim, resta provado, há quem saiba muito bem a quem pedir alguns trocados.
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