Amor nos Tempos do Wi-Fi

O amor, que antes tinha cheiro de livro, suor de mão suada e nervosismo de primeiro encontro, agora tem senha, filtro, vídeo em HD

 

* Gregório José

 

No começo, era a vizinha.
A prima da vizinha, talvez. Ou a filha da amiga da comadre, que ia sempre à missa das seis.
Os olhos se encontravam entre os bancos de madeira, e bastava um aceno tímido para começar a história. O namoro era coisa que crescia em silêncio, com carta, flor roubada do jardim e benção do pai severo.
Depois, veio a escola. O caderno emprestado, a letra bonita, o bilhete dobrado em quatro e passado de mão em mão, até pousar no colo certo. As paixões se faziam no intervalo, entre um lápis emprestado e um recreio dividido. Era o amor da carteira ao lado.
E, sem querer, o trabalho virou palco. O coração batia entre papéis, telefones e cafezinhos trocados no corredor. Entre planilhas e carimbos, nascia o desejo. E os amigos, ah… esses sempre foram cupidos eficientes. Apresentavam, incentivavam, mentiam sobre afinidades. E assim se casava.
Mas tudo isso foi ficando velho.
A igreja esvaziou-se de olhares românticos. Os vizinhos trancaram os portões. A escola virou EAD. O trabalho é home office. A rua é perigosa. O restaurante tem QR Code, e ninguém mais divide a sobremesa sem antes checar o Instagram do outro.
Foi aí que o amor migrou. Não para Paris. Para o Wi-Fi.
Primeiro tímido, como quem testa a água fria com o dedão. Um “oi” no bate-papo. Um “curti” escondido. Depois, foi virando hábito. As almas já não se cruzavam – se clicavam. Os olhares não se esbarravam – se arrastavam para a direita.
E agora, dizem os doutores de Stanford – estudiosos de amores antigos e algoritmos modernos – que mais de 60% dos casais se conhecem online. E os outros? Ah, são resistentes. Românticos órfãos de encontros casuais. Moradores de esquinas extintas.
O amor, que antes tinha cheiro de livro, suor de mão suada e nervosismo de primeiro encontro, agora tem senha, filtro, vídeo em HD. Há quem ache prático. Há quem chame de progresso. Há quem diga que nunca foi tão fácil se encontrar. Mas será que se encontra mesmo?
Sinto falta de um amor que tropeça. Que erra o nome. Que não tem emoji para dizer o que sente. Que se perde no caminho e chega atrasado. Que não tem notificação – tem surpresa.
Mas talvez isso seja saudade, ou teimosia.
Porque o amor, mesmo digital, ainda é um salto no escuro. Só trocou a praça pelo app. Só deixou de ser vizinho e virou avatar. No fundo, continua o mesmo: uma eternidade cabendo num clique. Ou num olhar. Se ainda houver olhos.

 

* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo ( Obs: Baseado no estudo da Universade de Standford 2024)

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