Rian Santos
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O Manifesto do Partido Comunista foi redigido há quase 200 anos, justamente quando Karl Marx e Friedrich Engels deram fé de um fantasma rondando a Europa. Concebido como um panfleto político, o documento dividiu o mundo inteiro em duas bandas. De um lado, os donos dos meios de produção. Do outro, os trabalhadores, donos somente da sua força de trabalho, os próprios braços. A luta de classes e não o carvão no forno das fábricas, expulsando fumaça das chaminés, alimentaria o motor da história.
Mesmo para quem, como eu, só entende na política a revolta, o Manifesto é emocionante. Não apenas pelo enunciado – no fim das contas, uma peça de propaganda. Mas, sobretudo, pela forma. A retórica poderosa do texto, conclamando os proletários do mundo inteiro à união, não sobreviveria tanto tempo sem a têmpera da linguagem esmerada. Qualquer comparação com os embates travados hoje, com a participação dos maiores partidos e sindicatos, à esquerda e direita, tão pragmáticos, resultaria constrangedora.
Sempre que folheio o Manifesto, me comovo com a capacidade de suas palavras definirem as feições da realidade. É como se, antes da nomeação, a coisa em si não existisse. Só então o homem livre e o escravo, o patrício e o plebeu, senhor e servo, chefe de corporação e assalariado ganharam o nome próprio de opressor e oprimido, explorador e explorado.
Evidente que tanta força deriva não apenas da narrativa, como em uma obra de ficção, mas justamente de uma comunicação imediata com o entorno de contrastes gritantes. Leandro Karnal fez o resumo da ópera, em oportunidade anterior, no Estadão: “Utopias, movimentos históricos e sangue correram em torno das ideias do Manifesto Comunista. Passados 170 anos, ainda estamos aqui pensando na obra e em como resolver as desigualdades do mundo”.


