Rian Santos
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Bob Dylan está prestes a completar 85 anos.
Quem o conheceu no auge, rebelde e criativo, vociferando contra os cabelos brancos de homens poderosos, caindo de velhos, jamais o imaginaria com um Nobel de Literatura embaixo do braço. E, no entanto, o tempo passou.
Ousadia e talento, o cálice entornado sem nenhuma temperança, rendeu fama, dinheiro e prestígio ao jovem Dylan, como de praxe. A longevidade, no entanto, era mesmo inesperada. Um prêmio Nobel de Literatura, jamais cogitado, parecia impossível.
Poeta, sem tirar nem por. O Prêmio Nobel oferecido a Bob Dylan colocou um ponto final numa discussão besta, já muito antiga. O compositor popular faz sim literatura.
Mr. Zimmerman, nome de batismo do trovador americano, é um entre muitos outros, talvez o herdeiro mais proeminente de longeva tradição. Desnecessário mencionar os maiores do gênero, espalhados pelo mundo, um por um. Melhor aproveitar a oportunidade para lançar luz sobre o ofício de colecionar impressões no calor do momento, colocando a própria vida e o assombro coletivo na estrofe de uma canção.
Aqui mesmo, em plena aldeia Serigy, a cantora e compositora Patrícia Polayne, por exemplo, assumiu sozinha, com a cara e a coragem, o propósito de criar uma memória lírica dos “tempos sombrios”. Cada nova aparição pública promovia uma espécie de catarse criativa, embalada a muita poesia – a resposta da artista às urgências do tempo presente.
Há outros exemplos colhidos aqui mesmo, bem próximos, para lembrar a maior virtude de qualquer enunciado: A poesia, como toda expressão artística, só acontece quando comunica. Daí a nulidade de nossas Academias de Letras, fechadas em cerimônias cafonas e floreios delirantes de grandeza. Bob Dylan, ao contrário, desde sempre indisposto aos louros parnasianos, é poeta sem farda. Nunca pediu favor a ninguém.


